O cenário que estava praticamente dado pelo mercado financeiro para a trajetória da taxa de juros na próxima reunião do Comitê de Política Monetária do Banco Central, marcada para esta quarta-feira (4), praticamente se inverteu ao longo das últimas semanas e após o 2º turno das eleições.
A notícia é da CNN Brasil. A vitória do presidente Lula nas eleições -- somada a uma série de riscos inflacionários internos e externos -- fez com que agentes econômicos, bancos e corretoras saíram da aposta majoritária de queda de 0,25 ponto percentual da Selic em novembro, para uma decisão favorável à manutenção dos juros em 13,75% ao ano.
Um dos principais termômetros para essa nova aposta são as opções de Copom negociadas na B3, a bolsa brasileira - que reforçam o peso da decisão eleitoral nos modelos de projeções do mercado.
Antes do 2º turno, a probabilidade de corte da Selic em novembro atingia patamares acima dos 70%. Após o resultado do pleito, as opções indicam probabilidade implícita de 68,8% de manutenção da taxa básica de juros.
As opções de Copom não representam uma projeção oficial da B3, mas são extraídas dos preços negociados nos contratos e refletem quanto os participantes estavam dispostos a pagar por cada cenário na data de referência.
O Itaú Unibanco, que projeta manutenção da Selic na reunião desta quarta, aponta a expectativa de que o Copom mencione uma moderação gradual da atividade econômica, mas sem citar que a atividade ainda se encontra em patamar resiliente.
A instituição também enxerga uma piora do ponto de vista qualitativo na divulgação do IPCA-15 de outubro e prevê que o comitê reconhecerá um distanciamento maior das expectativas de inflação em relação à meta.
"Esperamos que o Copom comunique uma interrupção do ciclo de cortes de juros com manutenção da taxa Selic em 13,75%, em decisão unânime. O comitê deve notar que o contexto global adverso, a desancoragem adicional das expectativas de inflação e os riscos elevados em torno do cenário base exigem cautela e perseverança no cumprimento de seu mandato", conclui.
O HSBC espera que a taxa Selic termine 2026 no patamar atual de 13,75%. A projeção é de juros inalterados até março de 2027.
O banco vê a situação das contas públicas como fundamental para projeções futuras da economia brasileira, e espera um BC cauteloso até o anúncio de medidas para o quarto mandato do presidente Lula.
"É improvável que surjam medidas claras para conter os gastos públicos antes das reuniões do Copom de novembro e dezembro. Enquanto isso, os riscos de inflação aumentaram, com preços mais altos de energia e alimentos, custos crescentes dos subsídios aos combustíveis e o possível impacto de uma semana de trabalho mais curta", aponta o HSBC em relatório.
As expectativas de inflação de médio e longo prazo devem deteriorar ainda mais, segundo a entidade. A projeção é de que o Banco Central incorpore explicitamente os riscos fiscais na avaliação de inflação.
O banco revisou as projeções futuras e espera que a Selic termine 2027 em 12,50%. Para o IPCA, espera-se que o índice termine em 5,1% em 2026 e 5% em 2027, já a previsão para crescimento do PIB também sofreu corte para 1,6% ao fim deste ano e 0,6% para o ano que vem.
"O principal risco é que as expectativas de inflação se desancorem. Com as taxas de inflação de equilíbrio já subindo acentuadamente e a incerteza fiscal permanecendo elevada, os participantes do mercado podem questionar o compromisso do BC com a meta de inflação", aponta.
Mas para além da eleição e das dúvidas relacionadas ao próximo governo Lula, as pressões contra o BC vêm de fora, com a continuidade das guerras da Ucrânia e do Irã pressionando os preços do petróleo e dos demais combustíveis.
O Itaú BBA destaca que o cenário internacional deixou de ser "incerto" e passou para "adverso".
"A guerra no Oriente Médio dá sinais de que pode ser mais duradoura e, mesmo com aumento significativo das exportações de petróleo da região, os maiores custos de frete, seguros e um prêmio de risco elevado trouxeram as cotações da commodity para perto dos níveis observados no início do conflito", diz o relatório.