O presidente nacional do PT, Edinho Silva, anunciou que o partido passará por “mudanças profundas”. Era de esperar. Uma legenda que acaba de conquistar o quarto mandato presidencial de Luiz Inácio Lula da Silva deveria estar discutindo como sobreviver politicamente ao seu demiurgo, atualizar seu programa, renovar quadros e responder a um mundo do trabalho irreconhecível para quem ainda enxerga a sociedade com lentes da década de 1980. Edinho, porém, revelou que a reforma terá de começar alguns andares abaixo. “O PT não vai ser um amontoado de projetos pessoais, não vai ser instrumento de enriquecimento pessoal”, disse ele, em uma reveladora entrevista ao jornal O Globo.
É uma confissão constrangedora. O presidente do maior partido de esquerda do País fala de uma legenda que comandou a Presidência por muitos anos e ocupou milhares de postos. E, ainda assim, julga necessário anunciar como horizonte de transformação algo que qualquer partido republicano deveria considerar cláusula de entrada: não existir para enriquecer seus próprios integrantes.
O PT gosta de pensar grande. Seus congressos falam em soberania, transformação social, democracia, desigualdade, revolução tecnológica e futuro. Sua caciquia jamais foi modesta sobre a missão histórica que reserva a si mesma. Há sempre uma página grandiosa a escrever, uma herança maldita a corrigir, uma correlação de forças a superar. Eis que, depois de toda essa épica trajetória, a direção descobre uma tarefa mais prosaica: convencer os companheiros de que o partido não pode ser um elevador social particular.
Não é uma frase perdida. Ao assumir o comando do PT, em 2025, Edinho já havia dito que a legenda não fora criada para “projetos pessoais” nem para “ascensão social”. E Lula foi ainda mais claro em 2015. Disse que o PT estava “velho e viciado em poder” e confessou: “Hoje a gente só pensa em cargo, em emprego, em ser eleito”. Onze anos depois, após mais duas vitórias presidenciais, a criatura continua exigindo o mesmo sermão.
Talvez por isso a expressão “Partido da Boquinha”, cunhada por Anthony Garotinho em 1999 numa disputa sobre cargos no governo do Rio, seja tão difícil de sepultar. A acusação era uma generalização e foi repelida pelo PT. Mas a boquinha tem uma qualidade inconveniente: volta e meia reaparece pela boca dos próprios petistas. Não é o adversário quem agora fala em projetos pessoais e enriquecimento. É seu presidente nacional.
O vexame está aí. Durante décadas, o PT cultivou a convicção de que não era apenas mais um partido disputando poder, mas uma espécie de reserva moral da política brasileira, nascida de baixo e vocacionada a representar interesses mais nobres que os das siglas tradicionais. Mesmo depois de escândalos e acomodações ao poder, sobreviveu entre seus quadros o hábito de narrar a própria trajetória em registro messiânico. O PT pode ter errado, mas sua causa seria sempre virtuosa.
A frase de Edinho Silva funciona como um peteleco nessa mitologia. Antes de salvar a democracia, reorganizar a esquerda ou interpretar a classe trabalhadora do século 21, talvez seja preciso recordar à companheirada que cargo público não é prêmio, estatal não é balcão partidário e governo não é agência de colocação profissional. Convenhamos: é uma pauta pouco heroica para quem se acostumou a falar em nome da História.
Reconhecer o problema é melhor do que negá-lo, mas tamanha sinceridade cobra preço. Se Edinho precisou dizer o que disse, terá de explicar quais práticas pretende mudar e que critérios pretende impor. O PT terá grande influência sobre a máquina federal no próximo mandato de Lula. É ali, entre nomeações, diretorias, conselhos, estatais e postos de confiança, que se verá se a declaração era princípio ou apenas liturgia.
O PT pode atualizar estatuto, programa e discurso. Pode convocar seminários sobre inteligência artificial, clima e os dilemas do capitalismo. Tudo legítimo. Mas, se quer convencer o País de que mudou profundamente, talvez deva começar por uma reforma muito menos sofisticada: ensinar a seus quadros que o Estado não lhes pertence. Para um partido que se imaginou durante décadas portador do futuro, é uma humilhação ter de voltar a uma lição tão primária.
Editorial Estadão