É uma cena que se repete quase todos os dias nas ruas de Natal: um motoboy que presta serviço para aplicativos como 99 Moto e Uber Flash perde a motocicleta em questão de segundos. No semáforo, em frente ao cliente, no caminho de volta para casa. Os criminosos agem com uma audácia que só é possível diante da omissão escandalosa do poder público em garantir segurança às ruas da capital potiguar.
As imagens obtidas pela reportagem registram o que os bandidos fazem com as motos roubadas: elas são levadas a desmancheiros clandestinos, desmontadas peça por peça ainda fresquinhas, e os restos — motores, garfos, quadros — são jogados em terrenos baldios e áreas de mata às margens da cidade. Um crime organizado, veloz e impune.

Quem aluga motos para motoboys — um modelo de negócio que emprega centenas de trabalhadores em Natal — está no limite da paciência e, principalmente, do caixa. Empresários do setor relatam que os índices de sinistro explodiram nos últimos meses, com furtos e roubos acontecendo em frequência diária. Cada moto perdida representa um prejuízo que pode ultrapassar os R$ 15 mil, sem contar os custos de seguro — quando existe — e a perda de renda do trabalhador que ficou sem o veículo.
"A gente tá pensando em fechar." É o que já dizem, em tom de desabafo, vários empresários que atuam no segmento de locação de motos para motoboys em Natal. A falta de segurança pública tornou o negócio inviável.
O trabalhador que perde a moto alugada não perde só o veículo — perde a sua fonte de renda, muitas vezes a única. São pais e mães de família que dependem de cada corrida entregue, de cada pedido transportado. A violência não poupa nem hora nem lugar: há registros de assaltos em plena luz do dia, em avenidas movimentadas de Natal, com criminosos agindo em duplas, frequentemente armados.
O esquema de desmanche é profissional e organizado. Criminosos furtam ou roubam a moto, levam para pontos específicos da cidade, desmontam rapidamente e revendem as peças no mercado paralelo. O que sobra é jogado fora, como se fosse lixo — e assim foi encontrado pelas vítimas e familiares que saíram em busca dos veículos.

A Secretaria de Segurança Pública do Estado (SESED) e a Polícia Militar seguem sem apresentar nenhuma resposta efetiva ao setor. Não há operações específicas para combate ao roubo de motos destinadas a trabalhadores de aplicativo. Não há patrulhamento reforçado nos corredores mais visados. Não há, na prática, nenhuma política pública voltada à proteção desta categoria que movimenta a economia urbana de Natal.
Enquanto os bandidos agem livres, os trabalhadores se perguntam: até quando? O motoboy que depende de uma moto alugada para sobreviver não tem como arcar com o prejuízo de um furto. O empresário que perdeu cinco, dez motos nos últimos meses não consegue mais fechar as contas. E as autoridades que deveriam dar respostas seguem tratando cada crime como um "dia atípico".
O Rio Grande do Norte não pode continuar sendo terra sem lei para quem trabalha honestamente. O setor de mototransporte emprega milhares de pessoas em Natal. Deixá-lo à mercê da criminalidade é uma escolha política — e uma escolha covarde.

A sociedade cobra resposta da SESED, da Polícia Civil, da Polícia Militar e do Governo do Estado do RN: quando vão agir para proteger os motoboys e as empresas do setor de locação de motocicletas em Natal? Os trabalhadores não podem esperar mais.
As fotos que ilustram esta matéria foram cedidas por empresários e trabalhadores do setor de mototransporte de Natal/RN, registradas em 18 de março de 2026. Os veículos retratados são de propriedade de empresas de locação de motos que atendem motoboys parceiros de aplicativos como 99 Moto e Uber Flash.