Romeu Zema (Novo), pré-candidato à Presidência, publicou nas redes sociais o segundo episódio da série "Os Intocáveis". O vídeo trazia dois bonecos de fantoche: um imitando Gilmar Mendes e outro representando Dias Toffoli. No roteiro satírico, o personagem de Toffoli pedia ao de Gilmar que anulasse a quebra de seus sigilos pela CPI do Crime Organizado. Em troca, Gilmar cobrava: "Só uma cortesia lá do teu resort que tá pago. Tô a fim de dar uma jogadinha essa semana", referência ao resort Tayayá, ligado a Toffoli e adquirido por fundo associado ao banqueiro Daniel Vorcaro, do Banco Master.
A resposta de Gilmar não veio nas redes. Veio nos autos. O decano do STF enviou a Alexandre de Moraes uma notícia-crime pedindo que Zema fosse incluído no inquérito das fake news. Na petição, Gilmar afirmou que o vídeo usava "sofisticada edição profissional e avançados mecanismos de deep fake" para "vilipendiar a honra e a imagem do STF". O caso tramita sob sigilo, e a PGR ainda não se manifestou.
O problema é que o vídeo não é deep fake. São bonecos de pano com bocas articuladas, no estilo de programas humorísticos que existem há décadas. O britânico Spitting Image ridicularizou primeiros-ministros e a família real por anos sem que nenhum tribunal considerasse processá-los. No Brasil, programas como Casseta & Planeta fizeram o mesmo. Classificar fantoche como "mecanismo avançado de deep fake" beira o ridículo jurídico.
Zema não recuou: "Quer que eu fique calado? É só os ministros intocáveis pararem de roubar o brasileiro e voltarem a ser juízes, empregados do povo." A pergunta que fica é simples: em que país um vídeo de bonecos é tratado como ameaça à democracia? Liberdade de expressão que não inclui o direito de rir dos poderosos não é liberdade. É concessão.