Em 2018, o Porta dos Fundos publicou no YouTube um esquete de pouco mais de um minuto que transformou o ministro Gilmar Mendes no "Posto Ipiranga" do Supremo Tribunal Federal. Protagonizado por Antonio Tabet e Gabriel Totoro, o vídeo mostra um caipira respondendo a todo tipo de pedido — aprovar projeto de lei contra abuso de autoridade para livrar senadores, conceder habeas corpus, resolver qualquer pendência judicial — sempre com a mesma frase: "É lá com o Gilmar Mendes."
A sátira, direta e sem filtro, ironizava decisões do decano do STF que, segundo críticos, beneficiavam sistematicamente autoridades próximas ao magistrado. O vídeo acumula mais de 2,5 milhões de visualizações e voltou a viralizar nesta semana, resgatado por internautas que enxergaram uma ironia inevitável no contexto atual.
O motivo da ressurreição do vídeo é o caso Romeu Zema. O ex-governador de Minas Gerais e pré-candidato à Presidência publicou em março um vídeo da série "Os Intocáveis", no qual bonecos que simulam Gilmar Mendes e Dias Toffoli protagonizam um diálogo satírico sobre a CPI do Crime Organizado e o escândalo do Banco Master.
Gilmar classificou o conteúdo como "deep fake" que "vilipendia a honra e a imagem do STF" e protocolou notícia-crime pedindo a inclusão de Zema no inquérito das fake news, conduzido por Alexandre de Moraes. A comparação saltou aos olhos: se um vídeo com bonecos de fantoche é motivo para investigação criminal em 2026, o que aconteceria com Fábio Porchat, Antonio Tabet e o Porta dos Fundos se o esquete de 2018 fosse publicado hoje?
A pergunta não é retórica. Em 2018, o vídeo circulou livremente, foi compartilhado por milhões, rendeu risadas e debate público, e nenhuma consequência judicial se abateu sobre os humoristas.
O próprio Gilmar Mendes não moveu qualquer ação contra o canal. Oito anos depois, o mesmo tipo de sátira (com bonecos, não com atores profissionais) é tratado como potencial crime contra a honra da Corte e motivo para inclusão em um dos inquéritos mais polêmicos da história recente do país.
A ironia é que até colegas de Gilmar no STF reprovaram a iniciativa nos bastidores, com um ministro chamando o pedido de "um absurdo" e outro classificando-o como tentativa de "influir na política". A oposição na Câmara já protocolou pedido de impeachment de Gilmar em resposta. Enquanto isso, o vídeo do Porta dos Fundos segue no ar — uma relíquia de um tempo em que rir do poder não era caso de polícia.