O novo pacote de renegociação de dívidas chega num dos piores momentos possíveis para a política monetária. A guerra no Oriente Médio limita o espaço do Banco Central para cortar juros, a inflação dos alimentos pressiona o orçamento das famílias e o custo do crédito segue elevado pela inadimplência recorde.
O comprometimento da renda do brasileiro ultrapassou 70%, segundo dados recentes. É o maior nível da história. Isso significa que de cada R$ 100 que entram, mais de R$ 70 já têm destino certo antes mesmo de o salário cair na conta. Nesse cenário, liberar FGTS é como dar uma aspirina para quem precisa de cirurgia.
O governo aposta que os descontos oferecidos pelos bancos e os juros limitados a 1,99% ao mês serão suficientes para quebrar o ciclo. Mas a experiência do Desenrola 1.0 mostra que boa parte dos inadimplentes que renegociaram voltou a se endividar em menos de 12 meses. O problema não era a dívida antiga. Era a renda que não acompanha os preços.
O pacote vai aliviar milhões de famílias no curto prazo. Isso é inegável e necessário. Mas enquanto o debate público girar em torno de renegociação e não de salário, produtividade e custo de vida, estaremos apenas adiando a crise para o próximo governo e o próximo Desenrola.