A primeira-dama e socióloga Rosângela da Silva, a Janja, culpou partidos da base com cargos em ministérios pelo baixo número de mulheres à frente das pastas no terceiro mandato de Lula (PT).
"Se você vai fazer um acordo de um partido que está na coalizão, muitas vezes, eles não indicam mulheres. É lamentável", disse. Segundo ela, há uma dificuldade para mulheres se colocarem dentro dos partidos.
A primeira-dama chamou de vergonhoso o número de mulheres no Congresso Nacional. Afirmou que as vagas reservadas pela cota partidária a mulheres, de 30% das candidaturas, nem sempre acabam revertidas em eleitas.
Janja defendeu uma reserva de metade das vagas para mulheres. As declarações foram dadas no programa Frente a Frente, parceria entre Folha e UOL, nesta segunda-feira (13).
Ao ser questionada sobre o aborto, Janja afirmou que a prevenção deve ser priorizada para evitar gravidez indesejada. Ela não respondeu se defende a descriminalização da interrupção da gravidez além das hipóteses hoje permitidas por lei.
Segundo ela, o projeto da senadora Damares Alves (Republicanos-DF), que dificulta o acesso ao aborto legal, "desprotege crianças" porque elas são grande parte das vítimas de estupros.
Ao ser questionada sobre a sucessão de Lula como principal quadro do PT, a primeira-dama evitou citar nomes. "O partido tem uma responsabilidade de construir esse nome pro futuro", disse.
Perguntada sobre suas pretensões eleitorais, Janja citou o samba "Plataforma", de João Bosco e Aldir Blanc. "Não sou candidato a nada, meu negócio é madrugada", brincou.
Segundo ela, a direita está à frente no uso das redes sociais. "A gente tem um pouco de princípios quando usa as redes sociais. Eles não têm."
Janja afirmou estar "psicologicamente preparada" para ver seu rosto sendo usado em possíveis campanhas difamatórias com uso de inteligência artificial durante a eleição.
A primeira-dama avaliou positivamente o ECA Digital e os decretos de Lula sobre proteção de mulheres nas redes. A atuação dela no tema também já a envolveu em polêmicas.
Durante um painel do G20 Social sobre combate à desinformação e regulação de plataformas digitais, em novembro de 2024, a primeira-dama discursava quando foi interrompida por um ruído e brincou: "Acho que é o Elon Musk".
Na sequência, disse: "Eu não tenho medo de você. Inclusive, fuck you, Elon Musk". O empresário era, naquele momento, aliado próximo do então presidente eleito dos Estados Unidos, Donald Trump, e viria a assumir um cargo no governo.
Janja afirmou que a "fama de gastadeira" atribuída a ela é "misoginia pura". Os gastos de Janja e de sua equipe em viagens oficiais foram questionados publicamente e explorados pela oposição.
Durante as Olimpíadas de Paris, em 2024, o governo federal pagou R$ 83,6 mil em passagens aéreas para que a primeira-dama acompanhasse a abertura do evento. A agenda incluiu encontros com a prefeita de Paris, Anne Hidalgo, e com o presidente da França, Emmanuel Macron, e sua mulher, Brigitte Macron.
O procurador-geral da República, Paulo Gonet, arquivou, em março de 2025, denúncias relacionadas aos gastos com viagens de Janja. Em reação às polêmicas e às críticas da oposição, a advocacia-geral da União editou, em abril de 2025, regras para orientar os gastos com cônjuges de presidentes.
Na entrevista, Janja também lembrou sua atuação na queda do ex-ministro dos Direitos Humanos Silvio Almeida, que foi exonerado após denúncias de assédio, em 2024. A primeira-dama saiu em defesa da então ministra da Igualdade Racial, Anielle Franco (PT), na noite em que o caso veio à tona.
"Eu simplesmente apoio. Não vou questioná-la, como muita gente questionou", disse. Janja afirmou ter sido vítima duas vezes de assédio, quando já era casada com Lula.
Questionada sobre seu papel durante o governo Lula, afirmou: "A sociedade brasileira nunca teve uma primeira-dama que trabalhasse. Eu trabalho todo dia".
Sobre Ruth Cardoso, mulher do então presidente Fernando Henrique Cardoso, Janja disse que ela recebeu um tratamento diferente porque "tinha mestrado, doutorado". "Sofro preconceito de classe, venho de família pobre."
A entrevista também abordou os bastidores da reação do governo Lula aos ataques de 8 de janeiro de 2023. Ela e o presidente estavam em Araraquara (SP) na ocasião e é creditada a Janja a orientação de evitar a decretação da GLO (garantia da lei e da ordem).
Folha de São Paulo