O presidente Luiz Inácio Lula da Silva tem transformado a estrutura oficial de comunicação do Governo Federal em uma extensão do palanque político. Transmissões públicas feitas por canais institucionais, bancadas com recursos, equipes e plataformas do Estado brasileiro, passaram a registrar episódios que extrapolam a prestação de contas administrativa e entram no terreno da provocação eleitoral, do ataque a adversários e da promoção de aliados.
O problema não está em o presidente discursar, defender programas ou inaugurar obras. Isso faz parte da função pública. A questão é outra: quando a transmissão oficial do governo passa a exibir gestos obscenos, ataques pessoais, referências eleitorais e constrangimentos envolvendo pré-candidatos, a comunicação institucional deixa de servir ao cidadão e passa a servir ao projeto político de quem ocupa o poder.
O caso mais recente ocorreu no Palácio do Planalto, durante evento oficial de entregas nas áreas de saúde, educação e habitação. Conforme registraram veículos como G1, O Globo, Estadão, CNN Brasil e Poder360, Lula mostrou o dedo do meio ao rebater a ideia de que “pobre não gosta de coisa boa”. A frase registrada foi: “Precisamos acabar com essa história de que o pobre não gosta de coisa boa. Aqui para eles”, disse o presidente, fazendo o gesto obsceno. Em qualquer ambiente privado, já seria inadequado. Em uma cerimônia oficial, transmitida pela estrutura pública, o episódio ganha gravidade institucional.
Também no Rio Grande do Norte, a transmissão oficial de uma agenda do governo acabou capturando um momento de evidente conotação eleitoral. Durante a inauguração do Túnel Major Sales, no Ramal do Apodi, apoiadores gritaram o nome de Cadu Xavier, pré-candidato do PT ao Governo do Estado. Lula tentou escapar da caracterização eleitoral dizendo: “Não conheço o Cadu. Não conheço essa pessoa que vocês estão gritando o nome. Não sei se é daqui, mas já que vocês querem gritar, gritem”, segundo registraram Metrópoles e Poder360. A tentativa de disfarce, porém, apenas reforçou o incômodo: o candidato estava no contexto político da agenda, era conhecido do presidente e havia sido defendido por ele em entrevista local.
O episódio potiguar mostra como eventos oficiais passaram a operar numa zona cinzenta. Formalmente, são agendas administrativas. Na prática, reúnem aliados, prefeitos, governadores, pré-candidatos e militância, com transmissão oficial, estrutura pública e narrativa eleitoral embutida. Quando o público grita o nome de um candidato e o presidente responde em tom de brincadeira, o Estado deixa de comunicar uma obra e passa a transmitir um ato político.
Mais grave ainda foi a fala envolvendo o senador Flávio Bolsonaro, pré-candidato à Presidência pelo PL. Em evento em Catalão, Goiás, Lula chamou filhos de Jair Bolsonaro de “vendilhões da pátria” e “traidores”, ao criticá-los por supostamente buscar apoio externo contra o Brasil. Em seguida, afirmou: “Por menos do que isso, Joaquim Silvério dos Reis, que delatou Tiradentes, foi enforcado. O que merecem os traidores da pátria que vão pedir intervenção de um país no nosso país? Pensem, pensem, meditem.” A fala foi interpretada por Flávio Bolsonaro como ameaça e incitação à violência, levando o senador a acionar o STF, conforme registraram G1, Valor, CNN Brasil e Estadão.
Ainda que aliados tentem tratar os episódios como força de expressão, improviso ou linguagem popular, há uma diferença essencial entre retórica de campanha e comunicação de Estado. O presidente da República não fala apenas como líder partidário quando está em evento oficial. Ele fala investido da autoridade máxima do Executivo, sob símbolos nacionais, com servidores mobilizados e transmissão custeada pela máquina pública.
Essa é a fronteira que Lula tem tensionado. A comunicação oficial deveria obedecer aos princípios da impessoalidade, moralidade e finalidade pública. Não deveria ser usada para constranger adversários, insinuar punições violentas, testar slogans eleitorais ou promover aliados regionais. Quando isso ocorre, o governo transforma canais institucionais em instrumentos de disputa política.
O resultado é ruim para a democracia e para o próprio debate público. Em vez de informar o cidadão sobre obras, programas e serviços, as lives oficiais passam a produzir cortes virais, polêmicas e munição eleitoral. O Governo Federal, que deveria comunicar políticas públicas com sobriedade, acaba funcionando como produtora de conteúdo de campanha.
A crítica, portanto, não é apenas ao estilo de Lula. É ao uso da estrutura do Estado como palco permanente de mobilização política. Gestos obscenos, apresentação indireta de candidatos e falas interpretadas como sugestão de enforcamento de adversários não combinam com a liturgia do cargo nem com o propósito da comunicação pública. O governo pode — e deve — prestar contas. O que não pode é usar o microfone oficial da República como palanque particular.