Rosas di Maria 2
 Lula. (Foto: Ricardo Stuckert/PR).
politica

A diplomacia a serviço do ego de Lula

O presidente argentino Javier Milei deu ao Brasil razão suficiente para uma resposta firme. Veio ao País participar do lançamento da candidatura de Flávio Bolsonaro e, ao lado do adversário de Luiz Inácio Lula da Silva, chamou o presidente de “presidiário” e o ministro do Supremo Tribunal Federal Alexandre de Moraes de “lixo careca”. O Itamaraty convocou o embaixador Julio Bitelli e comunicou seu protesto ao representante argentino. Até aí, defendeu uma fronteira elementar entre a disputa política brasileira e a conduta esperada de um chefe de Estado estrangeiro em relação a autoridades nacionais. Agora, o governo decidiu que Bitelli não voltará a Buenos Aires e rebaixou a relação ao nível de encarregado de negócios.

As duas decisões brasileiras não se confundem. A convocação registrava a gravidade da ingerência e oferecia uma resposta proporcional, com espaço para a normalização. Manter o embaixador fora do posto por tempo indeterminado exige uma justificativa adicional. O governo tem o direito de pressionar Milei, mas o instrumento diplomático só faz sentido se procurar modificar sua conduta. Até agora, Brasília não explicou o que espera de Buenos Aires nem como saberá que a medida funcionou.

Milei deve pedir desculpas ou apenas abster-se de novas intervenções partidárias? Quem avaliará o cumprimento de uma eventual condição? Nenhuma resposta, nenhum prazo e nenhum critério de revisão foram apresentados. A represália fica sujeita ao calendário eleitoral e às provocações do presidente argentino. Cada novo ataque eleva o custo político de Lula recuar; perto da eleição, o retorno de Bitelli poderá ser vendido como capitulação. O governo criou para si uma posição da qual só consegue sair pagando um preço definido por Milei.

Seria uma imprudência menor se estivesse em jogo uma formalidade protocolar. A embaixada continua aberta, e os contatos técnicos prosseguem, mas um encarregado de negócios não tem o acesso político nem a autoridade de um embaixador para levar impasses aos centros de decisão. Essa perda ocorre numa relação que dispensa dramatização para revelar sua importância. A Argentina é um dos maiores mercados do Brasil, sobretudo da indústria. Divergências comerciais e energéticas, muitas delas negociadas no âmbito do Mercosul, às vezes requerem intervenção política.

O chefe de Estado brasileiro reduziu o acesso do País em Buenos Aires. Seria um custo aceitável se houvesse um ganho correspondente. Como Brasília não o identifica, a utilidade mais visível da crise aparece na política doméstica. Milei oferece aos marqueteiros petistas um antagonista ligado a Jair Bolsonaro e Donald Trump, conveniente para converter Lula em um vingador da “soberania”. O argentino também lucra ao representar Lula como líder do socialismo regional. Os dividendos são recíprocos, mas as responsabilidades são distintas: Milei responde pela provocação, enquanto Lula responde pelo emprego da representação brasileira numa disputa que rende mais no palanque do que na diplomacia.

A invocação da soberania esbarra ainda na seletividade malandra do lulopetismo. Lula visitou a ex-presidente argentina Cristina Kirchner, então em prisão domiciliar por corrupção, sugerindo que ela era vítima de perseguição política. Nem por isso a Argentina rebaixou a relação do Brasil. Também apoiou o peronista Sergio Massa na eleição argentina de 2023 contra Milei. É evidente que isso não autoriza Milei a intervir na campanha brasileira, mas mostra que Lula exige de um adversário a reserva que ele mesmo dispensa diante de aliados.

O governo deveria devolver Bitelli a Buenos Aires. Se entende que o afastamento serve ao País, deve declarar qual resultado pretende alcançar, em que prazo o revisará e qual conduta argentina permitirá encerrá-lo. Firmeza diplomática se mede pela proteção dos interesses nacionais, não pela duração do protesto. Enquanto mantiver uma represália sem finalidade pública, Lula concederá a Milei influência sobre o nível da representação brasileira e reduzirá os instrumentos disponíveis para lidar com ele.

É bem claro como os interesses e o ego de Lula são bem servidos pela represália. Como ela serve ao Brasil, é coisa que ninguém até agora soube explicar.

Opinião do Estadão
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