A troca abrupta de marqueteiro logo no segundo dia oficial de campanha não é um mero ajuste técnico. É o sintoma mais visível de que Ronaldo Caiado (PSD) começou a enxergar que sua candidatura à Presidência está sendo tratada como peça secundária dentro do próprio partido. Ao dispensar Paulo Vasconcelos e colocar em seu lugar Marcos Carvalho, publicitário que atuou tanto na pré-campanha de Flávio Bolsonaro quanto nas eleições vitoriosas de Jair Bolsonaro em 2018, Caiado sinaliza desconforto com o rumo que sua candidatura vinha tomando, além de desconfiança sobre quem, de fato, está jogando a favor dele.
O estopim foi a recusa de Vasconcelos em se dedicar exclusivamente à campanha presidencial. O marqueteiro insistia em manter simultaneamente os projetos de Douglas Ruas (PL) ao governo do Rio e de Mateus Simões (PSD) a Minas Gerais. Para Caiado, essa divisão de atenção é reveladora de um problema maior. Dentro do PSD, sua candidatura nacional parece competir, e perder espaço, para interesses estaduais que o próprio partido também alimenta.
Não é a primeira vez que essa tensão aparece. Enquanto Caiado tenta se firmar como opção presidencial viável, o presidente do PSD e seu vice na chapa, Gilberto Kassab, dedica boa parte de sua energia política a costurar acordos regionais, como a estratégia de "transferência" de eleitores de Tarcísio de Freitas para tentar ampliar a presença de Caiado em São Paulo. É uma aposta que depende mais da força de terceiros do que da construção de uma narrativa própria e consistente para o candidato.
Com apenas 4% das intenções de voto na pesquisa Quaest mais recente, Caiado tem motivos concretos para desconfiar que o projeto que o PSD vende como prioridade nacional é, na prática, tratado como moeda de troca para blindar governadores e prefeitos aliados nos estados. A briga interna sobre o tom da campanha, se deveria atacar Flávio Bolsonaro ou adotar postura mais moderada, expõe ainda outra fragilidade. A ausência de uma estratégia unificada é sinal de que Caiado não tem controle pleno sobre os rumos da própria candidatura.
A escolha por Marcos Carvalho, que já rompeu por divergências até com a pré-campanha de Flávio, é uma tentativa de Caiado reagir a esse cenário e reassumir o protagonismo político dentro do PSD. Mas a troca, feita apenas um dia após o início oficial do horário eleitoral, também é o retrato de uma candidatura que tropeça na largada, e de um candidato que talvez esteja apenas começando a perceber o tamanho do isolamento em que se encontra dentro da própria sigla que o lançou ao Planalto.