Enquanto aguarda uma decisão da Justiça de São Paulo sobre seu pedido de recuperação judicial, o Grupo Casas Bahia já deu início a negociações com grupos de credores. Com dívidas de R$ 17,3 bilhões, a varejista tem concentrado esforços, segundo pessoas a par das discussões, na manutenção dos estoques e na continuidade das suas operações para manter as lojas abertas. Há relatos de fornecedores suspendendo a entrega de mercadorias e de ações de despejo em imóveis alugados onde há unidades da companhia.
Em nota enviada ao GLOBO, a empresa afirmou que “segue operando normalmente” e que tem atuado “de forma preventiva para minimizar eventuais impactos pontuais no abastecimento e nas entregas”. Entre as medidas adotadas, segundo a varejista, está o ajuste dos prazos de entrega de alguns pedidos.
“A companhia reforça que está em diálogo constante com seus parceiros comerciais e fornecedores, que estão reafirmando o apoio à empresa de maneira muito forte e colaborativa. Agradecida por esse reconhecimento, a Casas Bahia segue trabalhando para assegurar as melhores condições e continuidade da operação”, diz a nota.
Fabricantes credores
Segundo um fabricante ouvido pelo GLOBO, após a divulgação de que a Casas Bahia protocolou na Justiça um pedido de recuperação judicial, pedidos de mercadorias cujas entregas estavam previstas para as próximas semanas foram suspensos e tiveram o modelo de pagamento alterado.
Antes, os produtos eram enviados para as lojas e centros de distribuição da varejista com prazo de pagamento de 45 a 90 dias, a depender do contrato. Agora, a empresa fornecedora passou a exigir pagamento à vista antes do envio das mercadorias. Fontes próximas à varejistas dizem que há mais casos do tipo em curso.
— Todos os fornecedores estão preocupados, é uma porta que fica restrita — disse uma fonte.
Vários fabricantes de eletrodomésticos e eletrônicos estão na lista de cerca de 28 mil credores da varejista, como Samsung (R$ 937,6 milhões), Electrolux (R$ 700 milhões), Whirpool (R$ 635,9 milhões), LG (R$ 623,7 milhões), Motorola (R$ 619 milhões) e Lenovo (R$ 137 milhões).
No balanço do segundo trimestre, em que relatou prejuízo de R$ 10,1 bilhões, divulgado no domingo, pouco antes do pedido de recuperação, a companhia já citava dificuldades de repor estoques nos “níveis originalmente planejados”. O patamar caiu de 95 dias em 31 de março para 75 em 30 de junho.
Pedidos de despejo
Na quarta-feira, o grupo conseguiu na Justiça proteção contra a cobrança de credores. Na decisão, a juíza Tainá Maria Leonardo de Oliveira, da 2ª Vara de Falências e Recuperações Judiciais de São Paulo, também determinou que fornecedores deverão manter a entrega de produtos já em trânsito para lojas e centros de distribuição da Casas Bahia.
A varejista também enfrenta ações de despejo por inadimplência. Na Justiça de São Paulo há casos envolvendo imóveis ocupados pela empresa em diferentes municípios, como Ribeirão Pires, São Sebastião, Ferraz de Vasconcelos e Olímpia, mas a juíza Tainá de Oliveira determinou que seja mantida a prestação dos contratos essenciais, o que inclui o fornecimento de energia elétrica e água e a locação de imóveis operacionais da companhia.
Dentre os aluguéis em atraso estão dois grandes galpões logísticos ocupados pela Casas Bahia em Contagem, na Região Metropolitana de Belo Horizonte, e em São José dos Pinhais, perto de Curitiba.
Os imóveis pertencem ao fundo imobiliário HSI Logística, administrado pela Apex Group e gerido pela HSI. Segundo a gestora, a Casas Bahia pagou os aluguéis relativos ao mês de julho, mas as faturas vencidas em agosto ainda não foram quitadas. Na lista de credores, o fundo aparece como tendo a receber R$ 4,5 milhões da Casas Bahia.
Suspensão de ações
Em fato relevante, a gestora informou que a Casas Bahia foi notificada sobre a “possibilidade de aplicação das penalidades contratuais previstas”.
— A Casas Bahia deve manter os pagamentos dos aluguéis correntes, ou seja, após o pedido de recuperação judicial, e pode pleitear perante o juízo da recuperação a suspensão de ações de despejo — diz a advogada Raysa Moraes, sócia do Moraes & Savaget Advogados.
O Globo