Quando Lula publicou, em 9 de setembro, seu pedido de quebra total do sigilo das investigações do caso Master — "seja quem for, doa a quem doer" —, a mensagem parecia um movimento tático claro: pressionar o Judiciário a expor de uma vez as conexões entre Vorcaro e figuras bolsonaristas, especialmente as ligadas ao financiamento do filme "Dark Horse", sobre a trajetória de Jair Bolsonaro. O cálculo político era evidente: colocar seu principal adversário eleitoral, Flávio Bolsonaro, no centro do escândalo financeiro do ano.
O problema é que o "doa a quem doer" não poupou ninguém — e a quebra de sigilo, ampliada por André Mendonça sob pressão do próprio Fachin, revelou que o senador Jaques Wagner (PT-BA), aliado histórico de Lula, líder do governo no Senado até seu afastamento em junho e recentemente eleito para concorrer ao governo baiano, está longe de sair ileso.
Os documentos da PF apontam para um apartamento de R$ 2,45 milhões negociado em linguagem cifrada ("a altura do vão é 2,45m"), mais de R$ 3,5 milhões em transferências suspeitas, envio de vinhos de luxo e até o repasse de informações internas sobre a "emenda Master" a Ciro Nogueira. Não é figuração: é um dos nomes mais graves entre os políticos citados no relatório da Polícia Federal.
Aqui está a ironia do movimento de Lula: ao pedir transparência total, ele apostou que o volume de revelações contra o campo bolsonarista seria hegemônico o suficiente para abafar qualquer dano colateral ao próprio governo. Não foi bem assim. Sim, Flávio Bolsonaro aparece formalmente investigado por lavagem de dinheiro, evasão de divisas e corrupção — o que é gravíssimo e consolida um obstáculo real à sua candidatura.
Mas o mesmo pacote de documentos que expôs Flávio também jogou luz sobre o próprio partido de Lula, através de Wagner, criando um contraponto que qualquer estrategista de comunicação política identificaria de longe: quando os dois lados aparecem enlameados no mesmo escândalo, o efeito de desgaste tende a se equalizar — e, em campanhas eleitorais, equalizar desgaste é o mesmo que perder a vantagem que se buscava criar.
O resultado prático já apareceu nas pesquisas: enquanto o noticiário se debruçava sobre os dois lados do escândalo, uma sondagem BTG/Nexus mostrou Flávio Bolsonaro superando Lula em cenário de segundo turno — dado que, semanas atrás, seria improvável diante do tamanho do problema jurídico enfrentado pelo senador do PL.
A exposição simultânea de Wagner pode ter funcionado, paradoxalmente, como um amortecedor político para o adversário: ao invés de a imprensa e o eleitorado focarem exclusivamente no envolvimento de Flávio com o financiamento de "Dark Horse", a atenção se dividiu entre os dois blocos político-partidários enlameados pelo mesmo banco.
Em outras palavras, Lula "deu a cabeça" de Wagner — um nome que já vinha sendo desgastado desde seu afastamento da liderança do governo em junho, mas que ainda tinha capital político suficiente para disputar a Bahia — em nome de uma estratégia de transparência que, na prática, funcionou como um bumerangue. Ao insistir que "não pode haver seletividade" e que o sigilo deveria cair para todos, o presidente perdeu a capacidade de controlar a narrativa: não é mais o PT apontando o dedo para o PL, é o noticiário nacional tratando ambos os lados como igualmente comprometidos com o esquema do Banco Master.
Do ponto de vista estritamente eleitoral, a lição é clara: pedir transparência total só funciona como arma política quando se tem certeza absoluta de que o próprio time está limpo. Lula não tinha essa certeza — ou, se tinha, subestimou o quanto a investigação da PF já avançara sobre Wagner. O resultado é que, em vez de isolar Flávio Bolsonaro como o único personagem manchado pelo caso Master, o presidente ajudou a construir uma narrativa de equivalência moral entre os dois campos — exatamente o tipo de simetria que costuma beneficiar o candidato mais bem posicionado nas pesquisas, que, no momento, parece ser o próprio Flávio.