O comportamento do ministro Gilmar Mendes, decano do Supremo Tribunal Federal (STF), desponta como uma das chaves para o desfecho do julgamento marcado para terça-feira (15), que vai definir se Alexandre de Moraes será formalmente investigado por sua relação com o ex-banqueiro Daniel Vorcaro, do falido Banco Master. Nos últimos dias, Gilmar transitou por polos opostos do tabuleiro político, reunindo-se tanto com aliados de Lula quanto com representantes da campanha de Flávio Bolsonaro — movimento que alimenta incertezas sobre qual lado prevalecerá em seu voto: o de Moraes ou o de André Mendonça, relator do caso.
Segundo reportagem do O Globo, Gilmar telefonou para o presidente Lula na manhã de 1º de setembro, no mesmo dia em que André Mendonça retirou o sigilo do relatório da PF com as 51 mensagens entre Vorcaro e Moraes. À tarde, foi recebido pelo petista no Palácio do Planalto. De acordo com apuração do Poder360, ainda em julho, Lula havia convidado o próprio Moraes para um café após um evento oficial — sinal de que o presidente busca manter proximidade com os dois lados da disputa dentro da Corte.
Já o Estadão revelou que, dois dias depois, em 2 de setembro, o senador Rogério Marinho (PL-RN), coordenador da campanha presidencial de Flávio Bolsonaro, se reuniu com Gilmar Mendes no gabinete do ministro, em Brasília. O encontro foi descrito pelo próprio Marinho como um gesto de "boa vontade" institucional. Em nota, o senador afirmou: "Temos convicção de que venceremos as eleições e acreditamos que o próximo governo deverá preservar o diálogo institucional, o respeito entre os Poderes e a normalidade democrática".
Ainda segundo o Estadão, nos bastidores da conversa com Lula, Gilmar teria defendido que o STF reaja a decisões do ministro André Mendonça quando as considerar "excessivas ou ilegais" — o que sugere disposição de fazer contraponto ao relator do caso Master, favorecendo indiretamente Moraes.
A dupla movimentação ocorre em meio à maior crise institucional da história recente do Supremo, que já resultou em embates públicos entre ministros, pedidos de vista e disputas sobre a divulgação de inquéritos, conforme mostrou o Valor Econômico. Gilmar já havia pedido vista em sessão da Segunda Turma que discutia o afastamento do diretor-geral da PF, Andrei Rodrigues, adiando naquela ocasião uma decisão sobre o tema.
Com a Corte dividida e o resultado do julgamento de terça-feira ainda incerto, o posicionamento do decano — que soma décadas de experiência política e articulação nos bastidores do STF — é visto por interlocutores como um fiel da balança capaz de inclinar o resultado para qualquer um dos lados da disputa entre Moraes e Mendonça.