Há políticos que leem pesquisas. E há políticos que leem o país. Nesta quinta-feira (17), a menos de três semanas do primeiro turno, o governo Lula anunciou um reajuste de 15,04% no Bolsa Família — elevando o piso de R$ 600 para R$ 691 e o benefício médio de R$ 675 para R$ 777. Poucos, muito poucos, teriam a ousadia — ou a lucidez — de tomar uma decisão de impacto fiscal de R$ 5,8 bilhões neste ano e R$ 22 bilhões em 2027 faltando apenas 15 dias para as urnas.
Não é exagero dizer que o timing da medida é uma aula de tática eleitoral. Com as pesquisas mostrando empate técnico entre Lula e Flávio Bolsonaro num eventual segundo turno, a maioria dos estrategistas políticos recomendaria cautela: evitar decisões que pudessem ser lidas como desespero ou populismo de última hora. Lula fez o oposto. Transformou o que poderia ser um risco em munição direta para o eleitorado que mais precisa do Estado — e que historicamente é decisivo nas urnas.
O golpe de mestre está na narrativa escolhida pelo próprio governo. Ao justificar o aumento como mera "recomposição inflacionária" prevista em lei — e não como um gesto eleitoreiro —, a equipe econômica tenta blindar a medida de acusações de irresponsabilidade fiscal. O ministro Bruno Moretti foi didático: o INPC acumulado desde a criação do programa é de 15,04%, exatamente o percentual do reajuste. O ministro Dario Durigan reforçou o contraste com o passado, citando a "PEC Kamikaze" de 2022 — quando o governo Bolsonaro elevou o benefício em 50% via crédito extraordinário, sem lastro orçamentário, também a poucos meses da eleição. Lula, ao contrário, diz estar incorporando o gasto ao Orçamento "sem solavanco".
É esse tipo de jogada — que mistura substância técnica com timing político impecável — que sustenta a longevidade de Lula na política brasileira há mais de quatro décadas. Não é a primeira vez que o petista demonstra essa habilidade de ler o momento e agir com precisão cirúrgica: seja retomando o nome histórico do programa social que o tornou sinônimo de combate à pobreza, seja escolhendo o momento exato para reafirmar sua marca mais reconhecida junto ao eleitorado de baixa renda.
Convém lembrar: o próprio Lula não discursou durante o anúncio. Não precisava. O silêncio, nesse caso, também é estratégia — deixar que a medida fale por si, sem o desgaste de um discurso que pudesse ser recortado e usado contra ele pela oposição em plena campanha.
Concordar ou discordar do mérito da política econômica é legítimo — e o debate sobre responsabilidade fiscal em ano eleitoral é sempre necessário. Mas negar a habilidade política por trás da decisão seria ignorar a realidade. Em um momento de fragilidade nas pesquisas, cercado por crises que também atingem o Judiciário e o Congresso, Lula reagiu como sempre reagiu diante da adversidade: com uma jogada que só ele, entre os políticos brasileiros contemporâneos, parece ter a audácia e o timing de executar.