A retórica da "soberania nacional" sobre a Amazônia, repetida com frequência pelo governo brasileiro em fóruns internacionais e discursos ambientais, contrasta com uma realidade documentada por relatórios recentes: quem de fato exerce controle territorial crescente sobre partes estratégicas do bioma são o PCC (Primeiro Comando da Capital) e o CV (Comando Vermelho).
Segundo a CNN Brasil, um levantamento divulgado no início de setembro pela Global Initiative mostra que as duas maiores facções criminosas do país passaram a reinvestir os lucros obtidos com o tráfico de cocaína na extração mineral clandestina de ouro na região amazônica. A forte demanda internacional pela commodity, sobretudo na Europa, amplia as oportunidades de lucro e permite que o ouro extraído seja usado até para comprar cocaína diretamente de fornecedores nos países produtores — um ativo de difícil rastreamento, ideal para viabilizar transações de drogas em larga escala sem passar pelo sistema financeiro fiscalizado.
Se o Estado brasileiro de fato exercesse soberania efetiva sobre o território, dificilmente facções criminosas conseguiriam transformar a Amazônia em um dos principais corredores transnacionais de cocaína do mundo, com carregamentos sendo redirecionados para o Amapá e para a Guiana Francesa, de onde seguem para a Europa. Outro relatório da Global Initiative, divulgado neste mês, já havia identificado o uso de embarcações pesqueiras, submersíveis, lanchas blindadas e contêineres pelas facções para escoar drogas pela região — numa logística sofisticada que opera à vista, ou à revelia, das autoridades.
Esse cenário não é isolado. Um estudo do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, divulgado em abril, já apontava que CV e PCC passaram a tratar crimes ambientais — garimpo ilegal, extração de madeira, grilagem e tráfico de animais — como fonte estratégica de financiamento, lavagem de dinheiro e domínio regional, com atuação consolidada em pelo menos três municípios do Amazonas. Em outubro do ano passado, relatório da Abin já havia revelado que as facções brasileiras se aliaram a grupos armados colombianos numa "Amazônia Compartilhada", ampliando o narcotráfico, a mineração ilegal e o tráfico de migrantes.
O que esses dados expõem é um contraste incômodo: enquanto o discurso oficial sobre soberania se concentra, muitas vezes, em resistir a pressões e escrutínios internacionais sobre a preservação ambiental, o Estado brasileiro tem falhado em impedir que organizações criminosas ocupem o vácuo de poder na floresta, lucrando com o tráfico e destruindo o próprio bioma que a "soberania" deveria proteger.