A proibição dos "cassinos online" defendida pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) tem gerado forte reação de clubes e federações de futebol pelo Brasil, que alertam que a medida pode representar, na prática, o fim do futebol nacional como ele é conhecido hoje.
Em manifesto conjunto divulgado nesta semana, times como Flamengo, Vasco, Fluminense, Botafogo, São Paulo, Santos, Palmeiras e Cruzeiro, além das federações de futebol do Rio de Janeiro e São Paulo, classificaram como um "golpe fatal no futebol brasileiro" o plano do governo de restringir as empresas de apostas.
Segundo o documento, as bets se tornaram a principal fonte de renda do esporte nos últimos anos, sustentando não apenas os grandes clubes, mas também equipes menores, categorias de base, o futebol feminino e projetos sociais que dependem diretamente desses patrocínios para sobreviver.
"Para muitas destas agremiações, especialmente aquelas localizadas no interior do país, não existe hoje outro segmento econômico capaz de substituir imediatamente esse investimento", afirmam os clubes na nota, que também alerta para o risco de insolvência e insegurança jurídica diante de contratos plurianuais firmados sob o marco regulatório atual, construído pelo próprio Estado. Estima-se que as bets injetem mais de R$ 1 bilhão por ano só em patrocínios aos clubes da Série A do Brasileirão — recurso que, segundo as entidades, seria impossível repor em curto prazo caso a proibição avance.
A resposta do presidente Lula, no entanto, minimizou os alertas do futebol brasileiro. Em comício em Guarulhos, ele chamou de "balela" o argumento de que acabar com as bets levaria ao fim do futebol no país e reafirmou sua disposição de banir as apostas online, comparando-as a um vício: "Essa jogatina de internet não é jogo de aposta, é um vício. É uma doença chamada ludopatia (.). Se depender da minha vontade pessoal, eu vou acabar com as bets nesse País."
O problema é que, ao tratar a questão de forma unilateral e ignorando o impacto econômico já mapeado pelas próprias entidades esportivas, o governo corre o risco de subestimar as consequências reais de uma decisão abrupta. Times de menor porte, que hoje dependem quase exclusivamente das bets para manter departamentos de base, futebol feminino e estruturas administrativas, dificilmente terão como substituir essa receita da noite para o dia.
O discurso oficial, focado exclusivamente na saúde pública e desconsiderando qualquer alternativa de transição, deixa às claras que o governo está disposto a sacrificar parte da estrutura financeira do futebol brasileiro em nome de uma pauta eleitoral — sem apresentar, até o momento, qualquer plano concreto para amenizar o buraco financeiro que a medida deixaria no esporte mais popular do país.