O presidente da Associação Nacional dos Delegados da Polícia Federal (ADPF), Edvandir Paiva, afirmou neste sábado (5) que o relatório de inteligência da PF utilizado pelo ministro Alexandre de Moraes no inquérito das Fake News é "totalmente irregular" e sequer deveria ter saído da corporação. Mais do que isso, Paiva colocou em dúvida a própria autenticidade do documento, apontando que o texto não apresenta elementos que normalmente identificam produções oficiais da Polícia Federal.
O assunto já foi publicado aqui no Blog e foi destaque no Jornal 96 - veja acima. Segundo o dirigente, chamou atenção entre os delegados a ausência de autoria formal e o formato do relatório, que não seguiria os padrões habituais adotados pela corporação em documentos de inteligência. "Muitos chegaram a questionar se o texto realmente tinha sido produzido na PF", relatou Paiva, em declaração à coluna do jornalista Aguirre Talento, do Estadão. A suspeita ganha peso porque, segundo ele, relatórios de inteligência costumam trazer identificação do responsável pela produção e seguir uma estrutura técnica que não estaria presente no documento usado por Moraes.
Independentemente da origem, Paiva foi taxativo ao afirmar que o material reúne apenas impressões internas e análises subjetivas, sem qualquer valor probatório — o que, segundo ele, torna sua utilização em um processo criminal "algo totalmente irregular". Ele lembrou que a própria doutrina de inteligência da PF veda a inclusão desse tipo de conteúdo em inquéritos, justamente por não passar pelo crivo de verificação factual exigido em investigações formais.
O relatório foi entregue por Andrei Rodrigues, diretor-geral da PF, a Moraes, após determinação do ministro. Mesmo o próprio documento indicando que não possui valor probatório, Moraes o utilizou para acusar o ministro André Mendonça de abuso de autoridade, depois que Mendonça solicitou à PF um relatório detalhando conversas entre Moraes e o banqueiro Daniel Vorcaro, alvo do escândalo do Banco Master.
Paiva defendeu a conduta da equipe de investigadores que cumpriu a ordem judicial de Mendonça, afirmando não haver qualquer irregularidade no trabalho técnico realizado pelos policiais. Para ele, o problema está concentrado na produção e na divulgação do relatório apócrifo usado contra o colega de Corte.
O dirigente também alertou que a exposição pública do documento pode ter comprometido investigações em andamento, ao revelar a existência de alvos que ainda não tinham conhecimento de que estavam sendo investigados — um risco adicional gerado pela circulação de um material que, segundo a própria ADPF, nunca deveria ter deixado os arquivos internos da Polícia Federal.