O PT passou meses tentando enquadrar o escândalo do Banco Master como um problema exclusivo da oposição. A estratégia era clara: vincular o caso prioritariamente ao senador Ciro Nogueira (PP-PI), cujas relações com Daniel Vorcaro incluíam hospedagens de luxo em Lisboa, repasses milionários e atuação legislativa em favor do banco, conforme revelaram documentos da PF cujo sigilo foi retirado pelo ministro André Mendonça na terça-feira (16), segundo a Folha de S.Paulo e a Gazeta do Povo.
Com Ciro Nogueira como rosto do escândalo, o PT fortalecia o discurso de que o Master era fruto de uma gestão permissiva do Banco Central sob Roberto Campos Neto, durante o governo Bolsonaro. A mensagem era simples: a corrupção estava do outro lado.
Nesta quinta-feira (18), a 9ª fase da Operação Compliance Zero destruiu essa construção. A Polícia Federal cumpriu 18 mandados de busca e apreensão contra o senador Jaques Wagner (PT-BA), líder do governo Lula no Senado, e contra Augusto Ferreira Lima, ex-sócio de Vorcaro. Wagner é apontado como "beneficiário central das vantagens econômicas investigadas", segundo a decisão de André Mendonça reproduzida pela BBC Brasil. A PF detalhou que o senador teria recebido um apartamento de R$ 2,45 milhões em Salvador, repasses milionários a empresas familiares, voos em jatinhos e ingressos para shows nos Estados Unidos, tudo em troca de atuação em pelo menos três frentes legislativas favoráveis ao Master. Foram apreendidos 49 mil dólares em endereço ligado ao parlamentar.
O problema para o PT é que Wagner não é uma figura periférica. É o líder do governo no Senado, fundador do partido na Bahia, ex-governador do estado em dois mandatos, ex-ministro de Lula em três pastas e um dos homens de maior confiança do presidente. A relação entre o Master e o PT baiano, conforme a delação rejeitada de Vorcaro publicada pela Veja, remonta a 2007, quando Wagner era governador e criou o programa Cesta do Povo, que depois se transformou no CredCesta, uma das principais operações de crédito consignado ligadas ao grupo financeiro. A investigação da PF aponta que a parceria entre o banco e o poder político na Bahia se estendeu por duas décadas, atravessando os governos Wagner e Rui Costa.
Com Wagner atingido pela Compliance Zero, a tentativa do PT de transformar Ciro Nogueira no único vilão do caso Master perde sustentação. O escândalo agora é bipartidário na essência: tem Ciro Nogueira e Hugo Motta de um lado, Jaques Wagner e potencialmente Alcolumbre de outro, todos orbitando o mesmo banco, o mesmo dinheiro e os mesmos operadores. Para o PT, que se apresentava como fiscal da moralidade no caso, a situação é particularmente danosa: não é possível cobrar investigação contra adversários enquanto seu próprio líder no Senado é apontado como beneficiário central de um esquema de corrupção. A narrativa seletiva ruiu, e o partido terá de recalcular sua posição num escândalo que não escolhe lados.