A alternância de poder é um dos fundamentos da democracia. Mais do que substituir governantes, representa a oportunidade de corrigir rumos, renovar políticas públicas e reconstruir expectativas. No Brasil, essa perspectiva de mudança ultrapassa o debate político e começa a se manifestar tanto no mercado financeiro quanto na realidade de quem vive do próprio trabalho.
O mercado antecipa cenários. A expectativa de responsabilidade fiscal, controle da inflação e segurança jurídica pode reduzir juros futuros, estimular investimentos e valorizar as empresas. Entretanto, seria um equívoco interpretar esses movimentos apenas sob a ótica dos investidores.
A economia real é aquela vivida por milhões de brasileiros que trabalham, empreendem e enfrentam dificuldades para manter seu poder de compra. Juros elevados encarecem o crédito, limitam investimentos, comprometem o consumo e dificultam a geração de empregos.
É nesse contexto que a alternância de poder ganha significado social.
Não por acaso, pesquisas eleitorais apontam avanços da oposição em segmentos de menor renda, inclusive entre eleitores que recebem de um a dois salários mínimos. Esse movimento merece atenção, pois pode refletir uma reavaliação das expectativas de parte dos trabalhadores diante da realidade econômica.
O trabalhador não vive de indicadores abstratos. Sente diariamente seu poder de compra ser engolido pela inflação. E não se trata de mera sensação, mas de uma realidade concreta, percebida no supermercado, nas contas domésticas e na dificuldade crescente de fazer o salário chegar ao fim do mês.
Para quem depende do próprio trabalho, pouco importa o discurso econômico quando a renda não acompanha o custo de vida. O que realmente importa é preservar o salário, encontrar oportunidades e perceber que o esforço cotidiano produz resultados.
A alternância democrática permite justamente essa avaliação. Nenhum governo detém permanentemente a confiança popular, tampouco pode considerar determinados segmentos sociais como eleitorado cativo.
Estudo de Xun Lei e Tomasz Piotr Wisniewski, publicado no Journal of Financial Research, identificou associação entre instituições democráticas sólidas, proteção aos investidores e melhores retornos no mercado acionário. A confiança econômica também depende da estabilidade institucional.
Evidentemente, mudar um governo não resolve automaticamente os problemas econômicos. São necessárias políticas responsáveis, segurança jurídica e capacidade administrativa.
Entretanto, a possibilidade de mudança constitui parte essencial do funcionamento democrático, especialmente quando cresce a distância entre os indicadores econômicos e a realidade cotidiana da população.
O Mercado Financeiro pode reagir primeiro às expectativas, o trabalhador quem vive o resultado. Por tanto, escolher bem o voto é além de exercício democrático, é uma decisão sobre o próprio futuro.
A democracia se fortalece quando permite à sociedade avaliar seus governantes, corrigir escolhas e renovar caminhos.
Fernando Godeiro. Sócio da RD Investimentos | XP Investimentos, Head of Equity Strategy e especialista em Mercados Financeiros.
Canindé Alves. Advogado e doutorando em direito.