O ex-banqueiro Daniel Vorcaro pediu ao ex-diretor do Banco Central Paulo Sérgio Neves de Souza para que a autoridade monetária pressionasse a Caixa Econômica Federal após a revelação de que o braço de investimento da estatal, a Caixa Asset, havia afastado técnicos contrários a uma aplicação em papéis do Banco Master.
Três funcionários da subsidiária da Caixa perderam os cargos, em julho de 2024, após se posicionarem contra uma compra de R$ 500 milhões em letras financeiras do Master. O pedido de Vorcaro era para que o BC pressionasse o banco estatal a emitir uma nota contrariando o posicionamento do corpo técnico da sua subsidiária.
Caso a compra tivesse sido realizada, a Caixa estaria hoje entre os credores do Master, liquidado pelo BC em novembro de 2025, já que letras financeiras não têm cobertura do FGC (Fundo Garantidor de Crédito).
Na época, Paulo Sérgio era chefe-adjunto do Departamento de Supervisão Bancária. A responsabilidade desse setor é assegurar a estabilidade e a eficiência do setor bancário.
Para isso, monitora se os bancos estão cumprindo as exigências da autoridade monetária, como ter dinheiro em caixa o suficiente para cumprir as obrigações de curto prazo. Esse era o problema enfrentado pelo Master nos meses que antecederam a sua liquidação.
Antes disso, Paulo Sérgio trabalhou como diretor de Fiscalização, entre 2017 e 2023. Ele tinha quase três décadas de serviço no Banco Central quando o caso Master veio à tona.
Em 12 de julho de 2024, após a publicação da primeira reportagem sobre o caso, Vorcaro pergunta a Souza se "o Bacen não pode pedir à Caixa para se posicionar" sobre o caso.
O ex-banqueiro queria que a Caixa afirmasse institucionalmente que o relatório dos técnicos afastados "não representa com veracidade a análise da Caixa completa". Dessa forma, ele colocaria em descrédito a negativa apresentada pelos funcionários da Caixa Asset.
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Antes que Souza respondesse, Vorcaro afirmou que já tinha falado com alguém da Caixa, sem especificar a origem da informação.
"Eles devem fazer um comunicado dizendo que fizeram queixa-crime de vazamento do relatório e que o relatório não representa a opinião da Caixa", escreveu o ex-banqueiro.
"Nós já interpelamos a Caixa para incluir na apuração [o vazamento de informações internas]", respondeu Paulo Sérgio um minuto depois.
Na conversa com Paulo Sérgio, Vorcaro se queixou ainda do impacto que a notícia teria sobre o Master. "Estrago será imenso", resumiu.
Um pouco antes de pedir a Souza ajuda do BC na intermediação com a Caixa, ele escreveu que o Master já havia perdido uma venda de R$ 400 milhões em letras financeiras de dez anos ao Amapá. "Já estava assinado, aprovado em comitê", contou.
O investimento acabou sendo fatiado. No mesmo 12 de julho de 2024, os cinco integrantes do comitê de investimentos do fundo de pensão Amprev (Amapá Previdência) aprovaram por unanimidade um investimento de R$ 200 milhões no Master.
No dia 19 do mesmo mês, uma nova aplicação de R$ 100 milhões foi aprovada. Em 30 de julho, numa terceira deliberação, o comitê validou por unanimidade mais R$ 100 milhões para aplicação em letras financeiras do Master.
Procurada, a defesa do ex-diretor do BC afirma que ele "jamais protegeu interesses de Daniel Vorcaro e jamais recebeu quaisquer vantagens indevidas ou ilícitas em razão de seu cargo, desempenhando suas funções com independência, rigor técnico e absoluta observância dos deveres funcionais".
"O Departamento de Supervisão Bancária teve, de fato, interações com a Caixa sobre o tema. Como se tratava da Caixa Econômica Federal, porém, essas interações ficaram a cargo da equipe responsável pela supervisão daquela instituição", acrescentou.
O Banco Central e a defesa de Daniel Vorcaro não se posicionaram.
A defesa de Paulo Sérgio sustenta que o ex-diretor era o responsável pelos bancos pequenos e médios de São Paulo e, assim, não poderia ter conduzido essas tratativas.
"Em seu depoimento, Paulo Sérgio foi muito claro ao explicar que teve acesso ao parecer da Caixa Asset com um único objetivo: verificar se o documento trazia algum apontamento relevante para a supervisão do Banco Master", informou a defesa.
O objetivo da venda das letras financeiras à Caixa Asset era diminuir os problemas de liquidez do Master. Com o dinheiro, o banco de Vorcaro poderia pagar compromissos no curto prazo, já que o vencimento das letras que seriam compradas pela Caixa era de dez anos.
Esse aspecto é ressaltado pela defesa de Paulo Sérgio como algo positivo na atuação dele.
"Esse enquadramento [de liquidez] era, do ponto de vista técnico, de interesse da própria supervisão, que tem o dever de zelar pela solidez e pela estabilidade do Sistema Financeiro Nacional e, por isso, de exigir que todas as instituições cumpram as normas prudenciais. Trata-se de interesse institucional, que em nada se confunde com interesses particulares de Vorcaro", conclui a defesa.
A Caixa afirmou que "a Caixa Asset é uma coligada do conglomerado com absoluta autonomia e governança para tomar decisões técnicas, judiciais e administrativas". E reforçou que a compra das letras do Master não foi realizada.
"A Caixa Asset analisa regularmente oportunidades de negócios e adota processo criterioso de avaliação de ativos financeiros. Todas as decisões são submetidas a instâncias de conformidade e governança", acrescentou.
LINHA DO TEMPO DO CASO
28/05/2024: BC manda ofício ao Master exigindo "adequação da gestão de liquidez"
06/06/2024: Último dia em que o Master tinha ativos líquidos para cobrir 30 dias de vencimentos
13/06/2024: Começam as tratativas com a Caixa Asset
04/07/2024: Data do parecer sigiloso de técnicos da Caixa Asset vetando a operação
08/07/2024: Técnicos perdem os cargos na Caixa Asset
10/07/2024: Paulo Sérgio pergunta sobre o descumprimento do compulsório pelo Banco Master. Vorcaro diz que R$ 2 bilhões entrariam na semana via captação institucional
11/07/2024: Vorcaro diz a Paulo Sérgio que foi questionado sobre "a parceria com a Caixa, que está para sair"
12/07/2024: Imprensa revela o afastamento dos técnicos
16/07/2024: O Globo revela que a oferta total era de R$ 1 bilhão: outros R$ 500 milhões tinham sido oferecidos à Tesouraria da Caixa. Vorcaro diz que as duas operações foram suspensas
01/11/2024: Caixa destitui presidente da Caixa Asset
Folha de São Paulo