A passagem do senador Flávio Bolsonaro (PL) para o segundo turno da disputa ao Palácio do Planalto na frente do presidente Luiz Inácio Lula da Silva abriu uma crise no PT. A partir de agora, a principal estratégia da campanha de Lula à reeleição será explorar o medo contra um possível retorno da família Bolsonaro ao poder. Flávio, por sua vez, vai jogar parado, aproveitando a vantagem obtida com a onda da direita no País.
No QG do presidente, a avaliação é de que será difícil virar votos porque há um clima antipetista no País. Pega de surpresa com o rápido avanço de Flávio, a cúpula do PT vai ampliar o ataque ao senador e buscar o apoio de eleitores dos candidatos derrotados na primeira etapa da disputa.
Flávio também tentará convencer Augusto Cury (Avante), Ronaldo Caiado (PSD), Renan Santos (Missão) e Romeu Zema (Novo) a declarar voto para ele. O senador avalia que pode se beneficiar da migração desse eleitorado, à direita do espectro político. Em 2022, porém, o Movimento Brasil Livre (MBL), de Renan Santos, pregou voto nulo no segundo turno entre o PT e o PL.
Vice na chapa de Caiado, o presidente do PSD, Gilberto Kassab, disse neste domingo que, diante da “diversidade de cenários eleitorais” nos Estados, os diretórios e líderes do partido estão liberados para definir quem querem apoiar para o Palácio do Planalto.
O crescimento de Flávio na reta final desestabilizou a equipe de Lula, que fará uma reunião nesta segunda-feira, 5, para definir os próximos passos.
Em São Paulo, a apuração dos votos foi marcada por momentos de muita tensão no hotel onde estavam o presidente e dirigentes de sua campanha.
A portas fechadas, houve críticas internas à condução da campanha e à comunicação do governo, que não conseguiu se sobrepor ao discurso da oposição.
Antes mesmo da abertura das urnas, o PT já temia que o filho do ex-presidente Jair Bolsonaro virasse na frente. Pelos cálculos do comitê petista, Lula precisaria contar com uma diferença de quatro pontos porcentuais sobre Flávio para não ter sobressaltos no segundo turno. Terminou, porém, com 45% dos votos válidos e Flávio, com 47%.
A derrota do ex-ministro da Fazenda Fernando Haddad (PT), na primeira rodada, para o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), aumentou o cenário de dificuldades para Lula. Além disso, Marina Silva (Rede) e Simone Tebet (PSB) ficaram fora do Senado. Lula também não terá mais palanque em Minas, já que o senador Cleitinho Azevedo (Republicanos) foi eleito para o governo.
“Tudo como previsto”, afirmou o senador Rogério Marinho (PL-RN), coordenador da campanha do senador, ao chegar à casa onde o PL comemorou o resultado das urnas, em Brasília. O esforço do PL será concentrado agora nas articulações políticas, mantendo o foco das agendas no Sudeste.
A equipe bolsonarista deve repetir a estratégia de concentrar os atos de campanha em São Paulo, Minas e Rio, os três maiores colégios eleitorais do País, que reúnem 40% dos votos no País.
A eleição de governadores do PL, como Sérgio Moro, no Paraná; Luciano Zucco, no Rio Grande do Sul; e Jorginho Mello, em Santa Catarina, favorece Flávio, que também conta com o apoio de Tarcísio, em São Paulo.
“São Paulo vai ser decisivo para eleger Flávio no segundo turno”, disse o governador paulista, após ser reeleito. “Nós não vamos abaixar nossos acampamentos nem nossas bandeiras. Nós vamos derrotar o PT”.
A cúpula do PT identificou o cansaço da população “com tudo o que está aí”, o desgaste do governo e o desejo de mudança por parte do eleitorado como fatores que tornaram a disputa mais apertada do que o esperado.
Além disso, no diagnóstico dos petistas, a aliança de Lula com o Supremo Tribunal Federal (STF) pesou contra o candidato à reeleição neste momento em que a Corte enfrenta uma crise atrás da outra.
Até agora, nem o presidente nem o PT conseguiram renovar o discurso. A portas fechadas, dirigentes do partido admitem ser por isso que Flávio tem audiência quando se apresenta ao eleitorado como o antissistema.
O desafio de Lula, neste segundo turno, será superar o desgaste de sua própria imagem e vender esperança, nas três semanas que restam da campanha, com medidas que representem mudanças na vida da população.
Não foi à toa que, nas últimas propagandas na TV, Lula e Flávio vestiram o figurino da mudança. “Mudar não é voltar para trás. Mudança não é tirar o que você já conquistou. Não é armar o País nem entregar as nossas riquezas”, argumentou Lula, numa estocada em Flávio. “Desrespeitar mulher não é mudança; é passado”.
A frase traz embutida uma ameaça velada do que pode aparecer neste segundo turno. Há dossiês contra o senador com acusações da participação dele em orgias e negócios suspeitos.
A exibição de imagens com esse teor, no entanto, divide a campanha. De qualquer forma, a propaganda eleitoral de Lula na TV vai destacar mais escândalos protagonizados por Flávio, como o da rachadinha, além de tentar associá-lo a milicianos.
“Nós vamos mostrar as ligações que Flávio Bolsonaro tem com as milícias e o legado do pai, que ele carrega, com 714 mil covas abertas na pandemia”, afirmou o presidente do PT, Edinho Silva, coordenador da campanha de Lula. “Tudo isso será confrontado com o projeto representado pelo presidente”.
Fim da escala 6x1 é visto como ativo, mas oposição promete barrar proposta
A aprovação da proposta de emenda à Constituição (PEC) que prevê o fim da escala de trabalho 6x1 é vista como essencial pelo comando do PT para mostrar que o governo trabalha para melhorar a vida da população.
O presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União Brasil-AP), marcou para terça-feira, 6, uma sessão para analisar a proposta, que já foi aprovada pela Câmara. Alcolumbre tentará acelerar a votação, mas a oposição promete barrar a iniciativa, ainda mais agora que a direita saiu fortalecida das urnas, e não só na disputa presidencial. Bolsonaristas ampliaram suas bancadas na Câmara, no Senado e nos governos estaduais.
No diagnóstico da campanha de Lula, medidas como o fim da taxa das blusinhas e a isenção do Imposto de Renda para quem ganha até R$ 5 mil não surtiram o efeito esperado. O discurso da soberania também não provocou impacto e, na visão do PT, será necessário um ajuste de rota para mostrar como os Estados Unidos de Donald Trump poderão interferir no Brasil, se Flávio vencer a disputa.
Estadão