Como esperado, haverá segundo turno entre Flávio Bolsonaro (PL) e Luiz Inácio Lula da Silva (PT) na disputa presidencial, mas as urnas já deram um recado claríssimo no primeiro turno: com Flávio na frente de Lula, e com vitórias expressivas de partidos da oposição ao presidente – sobretudo o PL, partido dos Bolsonaros – na disputa pelo Senado e pelos governos estaduais, os brasileiros deixaram evidente que estão cada vez mais cansados do lulopetismo. Já se pode dizer que o eleitorado deseja mudanças.
O que se espera de Flávio e de Lula, agora, é que se disponham a debater suas ideias para que o eleitor possa saber qual dos dois é mais capaz de fazer essas mudanças. A campanha do primeiro turno, entretanto, não autoriza otimismo.
Lamentar a indigência do debate, contudo, não basta. O País é este. E, desde agora, os candidatos a governá-lo são Lula e Flávio Bolsonaro. É com um deles que a sociedade terá de lidar nos próximos quatro anos. Diante disso, o pior que o eleitor pode fazer por si mesmo e pelo Brasil é se entregar ao desalento, à indiferença ou à raiva. Sua decisão daqui a três semanas pesará muito no futuro. O próximo presidente da República terá pouca margem de erro para tratar de questões dificílimas de resolver.
As contas públicas estão em frangalhos. O crime organizado provoca medo nas ruas e avança sobre a economia formal, a política e até as instituições de Estado. A preservação do meio ambiente, ativo inestimável do Brasil, terá de ser conciliada com a exploração de petróleo e minerais raros. O Brasil precisa definir seu lugar em um mundo em convulsão após o colapso da ordem global do pós-guerra, notadamente marcado pela disputa geopolítica entre os Estados Unidos e a China, seus maiores parceiros comerciais. Como se nada disso bastasse, persistem os problemas domésticos nas áreas de saúde, educação e infraestrutura que, há décadas, frustram o potencial de desenvolvimento do Brasil.
Nenhum desses desafios é trivial. Por isso, os dois candidatos têm a obrigação de comparecer a todos os debates, entrevistas e sabatinas para dizer à Nação, com clareza e objetividade, o que pretendem fazer para resolvê-los. Fugir do debate, sob qualquer pretexto, ou recorrer a promessas vagas e ataques pessoais é não só um desrespeito ao eleitor, como um atentado contra um Brasil mais próspero para todos os seus cidadãos, tanto das atuais quanto das futuras gerações. Ademais, a sociedade merece saber como Lula e Flávio pretendem financiar suas políticas públicas. Não há futuro que não comece pela revalorização da responsabilidade fiscal, um princípio elementar da gestão pública que passou a ser tratado como xingamento.
Há ainda uma responsabilidade moral do futuro presidente perante a Nação. Quem vencer a eleição governará um país cindido, vale dizer, será o líder político também de milhões de cidadãos que não o escolheram para desempenhar esse papel. Não se superam desafios daquela envergadura sem a união do País em torno de objetivos comuns. O tom adotado por ambas as campanhas de agora até o dia 25 de outubro dirá muito sobre a disposição de Lula e de Flávio para curar as feridas abertas por uma disputa tão acirrada.
O segundo turno abre uma nova oportunidade para a qualificação do debate sobre os rumos do País. Os candidatos devem aproveitá-la para, enfim, falar de futuro. Se os problemas do Brasil são enormes, grandíssima também é a disposição de seu povo para resolvê-los – desde que bem liderado, como registra a História.