Em uma campanha que já começou com troca de farpas, Davi Alcolumbre (União-AP), Rogério Marinho (PL-RN) e Tereza Cristina (PP-MS) intensificaram as articulações para conquistar votos fora de suas bases para a presidência do Senado.
Enquanto o atual presidente da Casa negocia relatorias, comissões e espaços de influência para atrair a oposição, Marinho tenta avançar em negociações para além do PL. Tereza, por sua vez, aposta no trânsito entre parlamentares do Centrão para conquistar dissidentes de partidos alinhados à reeleição de Alcolumbre.
Apesar de disputarem parte dos mesmos votos, Marinho e Tereza evitam um confronto direto que favoreça Alcolumbre. Os dois mantêm suas candidaturas, mas pretendem comparar suas contagens em janeiro para decidir quem permanecerá na corrida como representante da oposição.
Gesto ao governo
Após as eleições, Alcolumbre passou a explorar a força do cargo para ampliar sua capacidade de negociação. A aprovação da PEC da Segurança Pública e o avanço das discussões sobre o fim da escala 6x1, prioridades do governo Lula, foram incorporados à estratégia de demonstrar influência sobre a agenda legislativa. Ao mesmo tempo, o senador procura preservar canais com a direita e reduzir resistências à sua recondução.
A federação União-PP, o MDB, o PSD e o PSB somam 26 senadores na composição projetada para fevereiro. Com os 11 integrantes da federação do PT, o grupo chega a 37 cadeiras. Aliados de Alcolumbre estimam ter 48 votos, número considerado inflado pelos adversários. Como a eleição é secreta, o apoio das direções partidárias não garante a adesão integral das bancadas.
A líder do governo no Senado, Teresa Leitão (PT-PE), reforçou a tendência de apoio do PT:
— Pelo cenário que se apresenta, creio que o PT vai apoiar Alcolumbre, mas ainda não fechamos oficialmente a posição. O líder Camilo (Santana, do PT) deve convocar a reunião com essa finalidade.
Um dos principais acenos à oposição envolve a relatoria da Lei de Diretrizes Orçamentárias (LDO) de 2027, reservada ao PL, partido de Marinho. O nome indicado foi o de Eduardo Gomes (PL-TO). Antes, o posto havia sido oferecido a Tereza Cristina, que recusou o convite para evitar que a aceitação fosse interpretada como um acordo com Alcolumbre.
O presidente do Senado também negocia o comando de comissões, entre elas a de Constituição e Justiça (CCJ), cobiçada pelo senador eleito Arthur Lira (PP-AL). Ex-presidente da Câmara, Lira integra a federação União-PP, que anunciou apoio a Alcolumbre.
Já Marinho busca transformar o crescimento da direita nas eleições em força política. O PL terá 29 senadores a partir de fevereiro e o Novo, três, somando 32 cadeiras. O candidato busca adesões em outras legendas para alcançar os 41 votos necessários à eleição.
Na quarta-feira, Marinho reuniu 31 senadores titulares da próxima legislatura, além de suplentes, deputados e dirigentes partidários, para oficializar sua candidatura. Participaram Hamilton Mourão e Evair de Melo, do Republicanos; e Guilherme Derrite, do PP, além de integrantes do Novo. A presença de outras siglas foi usada para demonstrar a capacidade de ampliar a base.
Enquanto tentam atrair votos, Alcolumbre e Marinho trocam críticas. O político do PL já acusou o Senado de ter perdido protagonismo e se tornado um “carimbador de projetos” do Executivo, além de criticar a influência do STF sobre o Congresso. O rival reagiu. Alcolumbre reclamou dos ataques pessoais, da pressão para abrir processos de impeachment contra ministros do Supremo e ironizou aliados de Flávio Bolsonaro que questionaram as urnas eletrônicas após a derrota para o presidente Lula, mas festejaram o resultado no primeiro turno, quando o PL elegeu sua bancada.
Já em relação a Tereza Cristina, Marinho e seus aliados procuram conter críticas, diante do receio de afastar senadores do Centrão que resistem a Alcolumbre, mas ainda não aderiram ao candidato do PL.
A senadora do PP aposta nas relações com colegas de diferentes campos políticos para se apresentar como alternativa. A ex-ministra da Agricultura busca apoios individuais no Centrão, inclusive em partidos cujas direções já anunciaram apoio ao atual presidente do Senado. Aliados estimam que ela possa reunir 42 votos, considerando a eventual desistência de Marinho.
Mesmo campo
Embora aliada do bolsonarismo, Tereza enfrenta resistências na ala mais ideológica do grupo, que vê com ressalvas sua proximidade com Michelle Bolsonaro. Seu perfil conciliador e o trânsito até entre governistas dificultam a adesão de parte do PL.
— Eu e o Rogério Marinho conversamos muito sobre esse assunto (as duas candidaturas), até porque somos do mesmo campo. Mas a minha candidatura está mantida e a dele também. Vamos ver mais para frente — afirmou a candidata.
A senadora conta com o apoio de Damares Alves (Republicanos-DF), próxima de Michelle, que vê na ex-ministra maior capacidade de atrair votos fora da oposição.
O Globo