Foi ontem. Discretamente, sem decreto, sem votação no Congresso e sem nota oficial, xenofobia e homofobia deixaram de ser crimes no Brasil. Pelo menos é o que sugere o silêncio ensurdecedor da mídia, das entidades e dos movimentos sociais depois que o ministro Gilmar Mendes usou o sotaque mineiro para ridicularizar Romeu Zema publicamente. Também comparou o ex-governador a um homossexual.
Nenhuma nota de repúdio. Nenhuma manifestação da OAB. Nenhum editorial indignado nos grandes jornais. Nenhum movimento nas redes cobrando responsabilização. O mesmo Brasil que para tudo quando alguém faz uma piada de mau gosto sobre qualquer grupo assistiu um ministro do Supremo zombar da fala do povo de Minas Gerais e tratou o episódio como se fosse debate político normal. Da mesma forma toda a comunidade gay está calada.
Não é. Sotaque é identidade regional. Zoar sotaque para diminuir alguém é xenofobia pelos mesmos critérios que essa turma aplica todos os dias para processar, cancelar e destruir reputações de quem pensa diferente.
Mas Zema é de direita. Mineiro pode. Malhar de um possível homossexual de direita pelo jeito também pode. A régua dupla é a única régua que o establishment brasileiro conhece.
Se um deputado do Nordeste, do Norte ou de qualquer outra região fosse alvo do mesmo escárnio por parte de um ministro do Supremo, o país parava. Virava CPF no banco de dados do cancelamento nacional.
Gilmar falou. O silêncio respondeu. E ontem ficou claro que no Brasil alguns crimes só existem quando cometem contra os amigos certos.