Em Barcelona, num fórum progressista, o presidente e eterno candidato Luiz Inácio Lula da Silva lamentou que a esquerda tenha “sucumbido à ortodoxia” e sido obrigada a governar com “austeridade”. O diagnóstico ecoa o programa elaborado no último congresso do PT, que volta a enxovalhar o “neoliberalismo” e promete turbinar o Estado como motor da economia.
O País acumula mais de uma década de déficits primários. A dívida bruta saltou de cerca de 52% do PIB em 2013 para algo próximo de 86% nas projeções para 2027. O arcabouço fiscal, vendido como âncora, multiplica exceções que somam dezenas de bilhões de reais e tolera metas fictícias. Ano sim, ano também, o governo promete superávits e entrega déficits. Eis a ideia de “austeridade” do PT.
A escalada de gastos estimula a demanda num ambiente de oferta limitada, pressiona a inflação e obriga o Banco Central a manter juros elevados. O efeito se propaga: crédito caro, investimento retraído e crescimento medíocre viciado em estímulos. Em 2026, estimativas de mercado indicam que quase metade da expansão do PIB pode vir de injeções fiscais e parafiscais. O que o governo vende como “prosperidade” é só poder de compra adiantado a juros escorchantes.
Longe de rediscutir essa mecânica, o PT quer robustecê-la. Fala em “Estado indutor”, expansão de crédito público, políticas industriais e uso estratégico de estatais. Na prática, esse Estado não induz produtividade. Induz apenas dependência, clientelismo e captura. O “planejamento” se resume à distribuição política de crédito. Não há novidade na bolha populista: expansão artificial da demanda sem ganho real de produtividade.
Entre 2011 e 2016, a aplicação mais ambiciosa dessa agenda produziu inflação desancorada, perda de confiança e uma retração acumulada do PIB superior a 7%. A Presidência de Dilma Rousseff não foi nenhum desvio. Foi só a expressão mais voluntariosa dessas ideias. A diferença é que nos primeiros governos petistas ainda havia algum colchão externo. Hoje, ele desapareceu.
O superciclo de commodities, que permitiu a Lula nutrir a ilusão de que sabe como fazer o País crescer, não se repete. A despesa obrigatória cresce no piloto automático, enquanto as renúncias fiscais se aproximam de 5% do PIB. Com juros elevados, o setor público precisaria gerar superávits robustos apenas para estabilizar a dívida – algo distante do horizonte.
Ainda assim, o lulopetismo recicla seu combo de mistificações: rebatiza gasto corrente como “investimento”, culpa terceiros pelos efeitos da própria política e trata limites fiscais como imposições ideológicas. Essa narrativa excita suas claques, mas não altera a aritmética. O mercado não inventa a dívida, apenas cobra o preço de financiá-la a um governo que combate os juros com a política que os produz.
O vício de origem é que o lulopetismo trata a política econômica como tecnologia de sustentação política. Crescimento, investimento e disciplina fiscal são contingentes. Quando exigem limites, viram “neoliberalismo”, “austeridade” ou “fetiche dos mercados”. Enquanto o programa petista dá tintas ideológicas a uma engenharia macroeconômica abstrata, o País real opera no crédito rotativo.
Cerca de 80% das famílias estão endividadas e uma parcela relevante já não consegue honrar compromissos. O PIB pode avançar morosamente, mas o orçamento doméstico está sob pressão. Estatísticas bem selecionadas não conseguem eliminar a distância entre as narrativas fabricadas no Planalto e a experiência no chão duro da economia familiar.
Lula se queixa de ter vencido com um discurso e sido forçado a governar com outro. A história eleitoral do PT mostra o oposto: quando radicaliza, perde; quando modera, vence. A “Carta ao Povo Brasileiro” foi condição de viabilidade. Agora, porém, já não quer sequer preservar as aparências. O programa do PT promete flexibilizar ainda mais as regras fiscais e ampliar a intervenção estatal – a começar pelo Banco Central. O País já testou esse modelo, conhece seus efeitos, sabe quanto custou. Repeti-lo seria masoquismo. Os marqueteiros lulopetistas podem dourar a pílula, mas a conta chega, na forma de dívida, impostos, juros e ausência de futuro.