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O presidente da Câmara, Hugo Motta, durante evento — Foto: Cristiano Mariz/Agência O Globo/02-04-2025
politica

Motta orquestra aprovação de 6x1 em cálculo para eleger pai ao Senado e ganhar marca em gestão

A aprovação da proposta de emenda à Constituição (PEC) que acaba com a escala 6x1 na quarta-feira, 27, deve se transformar na principal marca da gestão de Hugo Motta (Republicanos-PB) na presidência da Câmara. A PEC soma-se a outras pautas que Motta deu prioridade e pôs para votar. Em comum são temas com potencial de captalizar votos, além terem grande visibilidade nas redes sociais.

Nessa lista estão o Eca digital, batizado de Lei Felca, e o projeto que assegurou bagagem de mão gratuita em viagens aéreas.

Se para esses o que pesou foi o termômetro de Motta para as redes, no caso da PEC, deputados ouvidos pelo Estadão, avaliam que o cálculo político tem um objetivo específico: turbinar o nome de seu pai, Nabor Wanderley (Republicanos), prefeito de Patos, como candidato ao Senado pela Paraíba.

Esses parlamentares ressaltam que a aprovação da PEC na última semana por um placar expressivo passou o recado de que Motta tem o comando do plenário. Reforça também uma aliança com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, já de olho no apoio do petista para eleger o pai como senador.

Pesquisa divulgada pela Real Time Big Data no último dia 21 mostrou que o ex-governador João Azevêdo (PSB) é citado por 43% como opção para a primeira vaga ao Senado. O senador Veneziano Vital do Rêgo (MDB-PB) aparece com 25%.

Nabor Wanderley tem 7% das intenções para primeira vaga e 12% para a segunda vaga. Ele aparece atrás de Marcelo Queiroga, que tem 13%. Apesar disso, aliados de Motta indicam que o prefeito de Patos pode ser beneficiado pela aproximação com o governo Lula – o presidente recebeu 66,6% dos votos válidos na Paraíba no 2º turno, ante 33,3% de Jair Bolsonaro.

“É um momento de pacificação da relação da Câmara com o presidente Lula”, analisou o cientista político Marco Antônio Carvalho Teixeira, da Fundação Getulio Vargas (FGV). “A agenda eleitoral faz diferença. E o apoio de Lula no Nordeste pode fazer diferença para candidatura ao governo e mesmo ao Senado.”

A cena de Motta vitorioso ao lado de governistas após a aprovação da PEC do fim da 6x1 é uma mudança significativa em relação à avaliação do início de seu mandato como presidente. Colegas duvidavam que o jovem paraíbano teria forças para contornar a polarização da Câmara.

Uma das bandeiras eleitorais de Lula, o fim da escala 6x1 contava com resistência da oposição, de deputados mais alinhados ao setor produtivo e do próprio presidente do Republicanos, Marcos Pereira, que fez críticas públicas à medida e disse que “ócio demais faz mal”, em entrevista ao jornal Folha de S.Paulo – depois, precisou se desculpar após a repercussão negativa das declarações.

Motta, porém, usou o tema para associar-se à pauta governista e projetar seu próprio nome nas redes. “Assumi esta condução com todo equilíbrio, responsabilidade e compromisso com os brasileiros”, disse em discurso após a aprovação do texto em primeiro turno, reproduzido em publicação no Instagram.

O presidente da Câmara atuou para que o texto conciliado com o governo fosse aprovado sem alterações pelo plenário, repetindo o que ocorreu na votação da isenção do Imposto de Renda para quem ganha até R$ 5.000 por mês. Tanto a PEC, aprovada em primeiro turno com 472 votos, quando o IR, com 493, foram costurados pelo paraibano com os partidos de esquerda e centro e receberam apoio expressivo da oposição.

“Hugo mostrou que ele tem painel. E quando o painel fala alto, muita coisa se resolve nos bastidores, facilita. Uma votação expressiva de ontem (quarta-feira), os entraves que ele tinha ontem resolvem mais fácil no dia de hoje”, afirmou o líder do União Brasil na Câmara, Pedro Lucas Fernandes (MA).

“Eu acho que é uma marca, vai ser uma marca do presidente Hugo, é uma decisão corajosa, uma decisão que enfrentou muitas resistências, ainda está enfrentando, mas eu acho que o futuro vai reconhecer essa iniciativa do presidente Hugo frente à Câmara dos Deputados”, endossou o líder do Republicanos, Augusto Coutinho (PE).

Ao Estadão, Motta disse que o texto da PEC “foi construído de forma responsável, com período correto de transição, para não sobrecarregar consumidores e proteger quem empreende”.

“A aprovação da PEC mostrou o compromisso do Parlamento com as pessoas. Essa era uma pauta antiga à espera de votação, e o placar expressivo revelou que essa mudança está de acordo com o sentimento da população brasileira”, afirmou o presidente da Câmara ao Estadão.

O texto aprovado pela Câmara ainda vai ao Senado, onde setores produtivos tentam convencer os senadores a desvincular o debate do calor das eleições.

Estadão

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