O banqueiro Daniel Vorcaro fez mudanças em sua segunda proposta de delação premiada sobre a versão apresentada anteriormente para justificar pagamentos ao senador Ciro Nogueira (PP-PI) e passou a tratar o caso como propina, de acordo com pessoas que acompanham as negociações. Procurado por meio de sua assessoria, o senador ainda não se manifestou.
Na primeira tentativa de delação, o dono do liquidado Banco Master dizia apenas que bancou benesses ao senador, como viagens e festas, por sua “relação de amizade” com Ciro Nogueira e sem buscar nada em troca. Essa proposta havia sido costurada pelo advogado José Luís de Oliveira Lima, que deixou a defesa após a rejeição da proposta pela Polícia Federal e pela Procuradoria-Geral da República (PGR).
Após cerca de 15 dias de trabalho, que passou a ser coordenado pelo advogado Sérgio Leonardo, Vorcaro mudou seu relato e passou a narrar os repasses como uma tentativa de cooptação do senador para defesa dos seus interesses.
De acordo com pessoas que participam da negociação ouvidas pela reportagem, a segunda proposta de delação de Vorcaro trouxe mudanças de versões, endureceu as menções a fatos criminosos e apresentou novas informações que não faziam parte da primeira. Ele entregou novos detalhes, por exemplo, sobre irregularidades na captação de recursos de regimes de previdência municipais e estaduais para o Banco Master.
Essa segunda proposta está sob análise da PF e da PGR, mas os investigadores avaliam que os fatos apresentados não trazem avanços às investigações diante da grande quantidade de provas já obtida no celular de Vorcaro. Por isso, a tendência é que a PF rejeite a proposta. A PGR ainda está terminando de analisar o material.
A mudança de versão sobre Ciro Nogueira, por exemplo, foi feita depois que a PF deflagrou uma fase da Operação Compliance Zero que apontou suspeitas do pagamento de uma mesada de R$ 300 mil para uma empresa ligada ao parlamentar tendo como contrapartida a obtenção de benefícios ao Banco Master em propostas em tramitação no Congresso Nacional (leia mais abaixo).
Após a operação, Ciro Nogueira negou ter apresentado projeto com objetivo de beneficiar diretamente o Master e também negou irregularidades nos pagamentos.
Até agora, não houve uma comunicação formal à defesa de Vorcaro sobre a rejeição ou o prosseguimento da delação. A expectativa é que isso ocorra ainda nesta semana.
Caso a delação seja rejeitada, a PF deve solicitar que Daniel Vorcaro seja transferido de volta a um presídio. Desde março, o banqueiro está em uma cela especial da Superintendência da Polícia Federal em Brasília para confeccionar seu acordo de colaboração com seus advogados. As idas e vindas do processo, porém, geraram desgastes na relação com a PF e na permanência dele na superintendência.
Ciro apresenta ‘Emenda Master’ dias após Vorcaro comparecer a casamento de sua filha
Como mostrou o Estadão, Ciro Nogueira é um dos políticos que se conectaram com Vorcaro, participando de eventos patrocinados pelo Master no exterior, apoiando as negociações com o BRB e defendendo interesses do banqueiro no Congresso.
Vorcaro já chamou Ciro Nogueira de “um dos grandes amigos de vida” e mantinha relacionamento próximo ao presidente do partido, como mostraram as conversas do ex-banqueiro com sua ex-noiva, Martha Graeff.
Numa das primeiras citações a Ciro, em maio de 2024, Vorcaro manda uma foto para Martha, que pergunta: “Quem é esse outro com você? Não conheço, né?” Ao que Vorcaro responde: “Ciro nogueira (sic). É um senador. Muito amigo meu. Quero te apresentar. Um dos meus grandes amigos de vida.”
Nas conversas, há pelo menos dez menções explícitas ao ex-ministro da Casa Civil do governo Bolsonaro. Ambos combinam a ida ao casamento da filha de Ciro, Duda Nogueira, em 3 de agosto de 2024, em Angra dos Reis (RJ).
A ida ao casamento aconteceu dez dias antes de Ciro apresentar a chamada Emenda Master, como ficou conhecida a proposta do senador para aumentar o limite da cobertura feita pelo Fundo Garantidor de Créditos (FGC) a R$ 1 milhão por CPF e por instituição bancária, em vez dos atuais R$ 250 mil. Esse valor seria pago a cada correntista, em caso de dificuldades e eventual quebra da instituição financeira.
A proposta foi identificada por políticos e integrantes do mercado financeiro como uma das primeiras “digitais” para favorecer o Master no Congresso.
Os títulos com cobertura do FGC formavam o principal vetor do Master. O banqueiro Daniel Vorcaro disse, em depoimento à Polícia Federal, que o modelo de negócio era “100% baseado no FGC”.
O Master vendia CDBs (Certificados de Depósito Bancário) oferecendo rentabilidade bem acima da média dos grandes bancos para atrair investidores, mas demonstrou não ter capacidade para honrar esses pagamentos - que contavam com a garantia do Fundo. A emenda não foi acolhida pelo relator da PEC, senador Plínio Valério (PSDB-AM).
Estadão