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Daniel Vorcaro, dono do Banco Master. (Foto: Divulgação/Banco Master).
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Estratégia para ficar fora de prisão e falta de provas e fatos novos: entenda por que PF rejeitou delação de Vorcaro

A Polícia Federal rejeitou a segunda proposta de delação premiada apresentada pelo banqueiro Daniel Vorcaro. A informação já foi comunicada oficialmente ao ministro André Mendonça, relator do caso no Supremo Tribunal Federal (STF). Em ofício enviado à Corte, os investigadores solicitaram ainda que o dono do Banco Master deixe a Superintendência da corporação, em Brasília, para onde foi transferido em maio em meio às negociações de colaboração. Antes disso, ele estava preso na penitenciária federal, também na capital.

A Procuradoria-Geral da República (PGR), com quem a defesa de Vorcaro também negocia, ainda não deu resposta formal sobre o caso. A defesa do banqueiro aguarda o parecer da PGR para definir as próximas ações.

A PF considerou que o material não trazia novidades em relação ao que já havia sido mapeado pelas investigações, além de não trazer elementos de provas, que são essenciais para os acordos de colaboração. Os investigadores têm em mãos oito celulares de Vorcaro, com acesso a documentos e mensagens, e consideram que têm elementos robustos para prosseguir com a apuração sem depender dos depoimentos do dono do Master.

Segundo a percepção dos investigadores, o banqueiro teria poucas condições de corroborar os seus relatos com documentos, pois já não tem o controle do Master, liquidado pelo Banco Central em novembro diante das suspeitas de fraudes financeiras.

Cela especial
Há também uma percepção entre os integrantes da PF de que o banqueiro não está disposto a cooperar e estaria só tentando ganhar tempo longe de um presídio comum. Ele está detido atualmente em uma cela na Superintendência da PF, condição que está associada à negociação do acordo. O prazo inicial para que ele ficasse preso nessas condições expira hoje.

Após firmar um acordo de confidencialidade, em março, o que marcou o início das tratativas, Vorcaro foi autorizado a ficar numa cela especial, onde pode receber diariamente os advogados das 9h às 17h.

A PF e a PGR passaram os últimos dias analisando a segunda proposta. A avaliação predominante é que Vorcaro procurou mais se defender e justificar os favores à classe política do que admitir crimes e apontar novos caminhos de investigação, o que era esperado numa delação. O inquérito aponta que o executivo usava a influência política para expandir seus negócios e, por isso, aguardavam novos detalhes sobre essas relações.

Vorcaro é suspeito de comandar um esquema de fraudes financeiras que lesou correntistas e investidores do Master, o que incluiu fundos de previdência de estados e municípios, como o Rioprevidência, cuja antiga gestão também está na mira da PF, assim como o ex-governador do Rio Cláudio Castro (PL). A PF também tem avançado em investigações em outros estados, como Amazonas e Amapá.

O rombo no Fundo Garantidor de Créditos (FGC), que arca com aplicações de até R$ 250 mil, foi de cerca de R$ 50 bilhões. Entidades como o Rioprevidência estão buscando a via judicial para reaver os aportes feitos no Banco Master.

O banqueiro foi preso pela primeira vez em novembro do ano passado, no aeroporto de Guarulhos, quando estava prestes a embarcar para Dubai. Em março foi detido novamente e, pouco depois, trocou a prisão no interior de São Paulo pelo sistema federal de Brasília. Duas semanas depois, foi para a PF para iniciar as tratativas, que foram negadas pela primeira vez em maio.

Esta, portanto, é a segunda vez que a PF se retira das negociações com o banqueiro — a primeira ocorreu em maio e levou a uma troca na equipe de defesa. Na ocasião, o advogado José Luis Oliveira Lima, o Juca, deixou o caso, que agora tem à frente o criminalista Sérgio Leonardo. No início, a defesa era comandada por Pierpaolo Botini, que deixou o caso quando Vorcaro decidiu delatar.

Interlocutores da defesa do banqueiro, por sua vez, alegam que o material entregue traz um conjunto de histórias inéditas e é consistente. Para eles, os investigadores estão de má vontade.

Um acordo de colaboração premiada é um meio de obtenção de provas e prevê, entre outros pontos, a confissão de crimes e o pagamento de multa. Em troca, o investigado obtém benefícios, como redução de pena e progressão de regime.

Para ter validade jurídica, a delação precisa ser homologada pelo ministro André Mendonça. Ele já indicou que não vai concordar com a colaboração se ela não acrescentar fatos novos à apuração. Se o acordo não for adiante, a Polícia Federal e a PGR ficam impedidas de utilizar o conteúdo dos anexos já entregues.

Busca no exterior
Em outra frente, como mostrou O GLOBO, a Polícia Federal planeja incluir Vorcaro na lista de difusão prateada da Interpol (Polícia Internacional) com o objetivo de rastrear e bloquear as movimentações financeiras dele no exterior. A ferramenta foi utilizada pela primeira vez no início de 2025 contra um mafioso italiano e viabiliza a cooperação internacional na identificação e retenção de bens de pessoas investigadas. Diferentemente da difusão vermelha, que visa a captura do fugitivo, o dispositivo foca no patrimônio do alvo.

Caso seja pedida formalmente pela PF, autorizada pelo STF e acatada por autoridades dos Estados Unidos, a medida poderia alcançar os R$ 61 milhões repassados por Vorcaro a um fundo americano sob o pretexto de financiar o filme “Dark horse”, que retrata a campanha de Jair Bolsonaro em 2018.

Tanto o Brasil como os Estados Unidos participam do programa piloto da Interpol que testa o alerta. Até o momento, a liquidante do Banco Master tem buscado bloquear os bens ligados a Daniel Vorcaro nos EUA por meio de ações diretas na Justiça americana e não via Interpol.

A indicação de fundos, contas e bens no exterior é um dos pontos que a PF e a PGR esperavam que Vorcaro entregasse na delação. Os investigadores suspeitam que o banqueiro ainda mantém recursos fora do território nacional que não foram mapeados. Além disso, eles consideram que o dinheiro pode ser utilizado para cobrir os prejuízos das fraudes bilionárias provocadas pelo Master.

O Globo

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