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Opinião do Estadão: Só a privatização salva os Correios

Os Correios fecharam o primeiro trimestre deste ano com prejuízo de R$ 3,16 bilhões, quase o dobro do rombo registrado no mesmo período do ano passado, de R$ 1,72 bilhão. Foi o 14.º trimestre consecutivo de perdas, um resultado que lamentavelmente não surpreende. Nada parece ser capaz de reverter a trajetória acelerada da empresa rumo à ruína.

As receitas líquidas tiveram queda de 2,3%, para R$ 3,85 bilhões, e o mais preocupante é que recuaram tanto encomendas como postagens internacionais, duas das principais fontes de receita da companhia. As despesas gerais e administrativas, por sua vez, saltaram 85%, para R$ 2,26 bilhões.

O principal motivo foi o provisionamento de R$ 1,079 bilhão para contingências, sobretudo ações trabalhistas, o que sinaliza que a derrota, nesses casos, é tida como certa. O valor, que havia sido retirado dos balanços anteriores para tornar os resultados menos feios, voltou a ser incluído após questionamentos da Controladoria-Geral da União (CGU) e cobrança do Tribunal de Contas da União (TCU).

A bem da verdade, o presidente da empresa, Emmanoel Schmidt Rondon, já havia admitido que o resultado da companhia iria piorar antes de, supostamente, começar a melhorar. Ele projeta um prejuízo de cerca de R$ 10 bilhões neste ano, ainda maior que o rombo de R$ 8,5 bilhões no ano passado, mas sustenta que a empresa voltará a alcançar equilíbrio em 2027. Se já parecia uma projeção muito otimista no ano passado, hoje ela parece cada vez mais improvável.

Como se imaginava, o tímido plano de recuperação apresentado no fim do ano passado, centrado em leilão de imóveis ociosos, reestruturação de linhas de entrega e um Plano de Desligamento Voluntário (PDV), não tem sido suficiente para a retomada do equilíbrio econômico-financeiro. A meta era que 10 mil funcionários aderissem ao PDV, mas somente 4.632 aceitaram as condições propostas. Hoje, ainda conta com 77.729 empregados.

O patrimônio líquido dos Correios está negativo em R$ 16,2 bilhões. Em outras palavras, na hipótese de que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva fosse tomado por um surto de lucidez e decidisse fechar a empresa hoje e vender todos os seus ativos, os Correios ainda precisariam de um aporte dessa monta para honrar todos os seus compromissos. Como isso jamais vai acontecer num governo petista, a situação que já é muito ruim tende a se tornar calamitosa.

Se a redução da demanda por serviços postais tradicionais é um fato inexorável, o mercado de encomendas registra concorrência cada vez maior. Disputá-lo requer a prestação de serviços mais eficientes, ágeis e de qualidade, requisitos obrigatórios para empresas privadas, mas que estatais de estrutura paquidérmica como os Correios têm enorme dificuldade de atingir.

Diante de resultados tão ruins, seria preciso adotar um plano de recuperação muito mais ousado de corte de despesas. Desculpas como a universalização de serviços e a presença em todos os municípios do País já não colam mais, muito menos a cobrança de uma espécie de “indenização” por essas obrigações. Seria plenamente possível encontrar maneiras de executá-los com custo menor, mas isso exigiria admitir parcerias com empresas privadas.

A despeito desse cenário assombroso, os Correios conseguiram contratar um empréstimo de R$ 12 bilhões de um consórcio de bancos no final do ano passado e ainda pretendem arranjar algo entre R$ 7 bilhões e R$ 8 bilhões neste ano. A dívida, por óbvio, conta com garantia da União, que se recusa a reconhecer sua situação de dependência. Fato é que, se os Correios não conseguirem quitá-la, quem terá de arcar com ela será o Tesouro Nacional – leia-se: o contribuinte.

Entre privatizar empresas estatais insustentáveis e empurrar o problema com a barriga, sucessivos governos, inclusive o do ex-presidente Jair Bolsonaro, cujo ministro da Economia prometia arrecadar R$ 1 trilhão com a venda de empresas públicas, têm feito a opção mais fácil e cara. Quanto mais adiam a privatização, única saída óbvia para os Correios, maior será o custo para a sociedade. Não adianta varrê-lo para baixo do tapete.

Opinião do Estadão
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