O senador Rogério Marinho (PL-RN) é um político discreto, de fala mansa e contundente. Coordenador da campanha à Presidência de Flávio Bolsonaro, passam pelo crivo dele estratégias, articulações e os detalhes mais sensíveis das propostas de governo. Em agosto, por exemplo, o candidato do PL, impulsionado pela revelação das mensagens trocadas entre o banqueiro Daniel Vorcaro e o ministro Alexandre de Moraes, defendeu em um ato na Avenida Paulista o impeachment do magistrado do Supremo Tribunal Federal.
Marinho pode vir a ser uma peça-chave nesse processo. Numa eventual vitória do Zero Um, o senador potiguar se credencia como favorito para ocupar o poderoso cargo de presidente do Congresso. Hoje, a abertura de um processo de impeachment depende da disposição do chefe do Legislativo — disposição que não faltaria ao senador. Nesta entrevista a VEJA, o ex-ministro de Jair Bolsonaro também fala do caso Dark Horse, dos embates na reta final da campanha e dos planos de governo (pouco debatidos) de Flávio Bolsonaro. A seguir os principais trechos.
Flávio Bolsonaro tem defendido o impeachment dos ministros Alexandre de Moraes e Flávio Dino. Se o senhor se tornar presidente do Senado, em caso da vitória da chapa do PL, os processos serão instaurados? Não quero ser como Alexandre de Moraes, que acusa e julga. Quero me colocar no papel de magistrado. Se os elementos de prova me convencerem, votarei favorável ao afastamento em definitivo do ministro processado. O problema hoje é político. Não há no Senado maioria pró-impeachment, mesmo com todas as provas de crime de responsabilidade. O que há é uma avacalhação. O presidente do Senado participou recentemente de um jantar na casa do Alexandre de Moraes para promover um “namoro” com o Lula. É uma subversão do funcionamento dos Poderes.
E o que garante que esse cenário vai mudar? Se eu for presidente do Senado, vou implementar a mudança do rito. Quando o atual regimento interno foi feito, ninguém imaginava estar diante de uma suspeita tão forte de que um ministro do STF tenha praticado advocacia administrativa, recebido valores vultosos em contrapartida de benesses, tentado obstruir o Judiciário e passado informações para investigados. Agora, estamos discutindo impeachment de ministro faltando poucos dias para as eleições. Minha proposta: se 49 senadores assinarem um pedido de cassação, a abertura do processo será automática. O presidente do Congresso também poderá fazê-lo se entender que o pedido tem os elementos suficientes.
Como avaliou a sessão do Supremo que empurrou para depois das eleições a decisão sobre investigar ou não Alexandre de Moraes? Foi um espetáculo de deboche, com firulas legais para impedir a abertura do inquérito. Tentaram melar todo o procedimento com truculência e chantagem, como ficou claro pela maneira como Gilmar Mendes e Flávio Dino trataram outros ministros. Melhor seria se tanto o governo Lula como Alexandre de Moraes retirassem essa névoa de cima de suas cabeças em vez de tumultuar o processo, tentando confundir o povo.
“Minha proposta: se 49 senadores assinarem o pedido de impeachment, o processo será aberto. O presidente do Congresso também poderá fazê-lo se entender que há elementos suficientes”
A campanha de Lula tem explorado muito o caso Dark Horse na propaganda eleitoral. É correto um senador pedir dinheiro a um banqueiro? A relação de Vorcaro com Flávio Bolsonaro foi entre entes privados. Naquela oportunidade, era um banqueiro que tinha autorização do Banco Central para operar e relacionamento comercial com os principais bancos brasileiros. Flávio não era poder, não era do governo. Não há nenhuma contrapartida. O áudio pedindo financiamento para o filme sobre o pai gerou uma comoção porque veio a público quando Vorcaro já estava sendo acusado. Como candidato à Presidência, Flávio deveria ter deixado claro que essa relação existia no momento em que os problemas de Vorcaro com a Justiça apareceram. O envolvimento do entorno de Lula é muito mais grave. Guido Mantega, Ricardo Lewandowski e Jaques Wagner recebiam recursos do banco através de familiares ou de consultorias, e tinham condição de oferecer contrapartida.