O governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) elevou nesta quinta-feira (24) a projeção de déficit primário para 2026 de R$ 52 bilhões para R$ 80,9 bilhões — uma piora de R$ 28,9 bilhões em apenas dois meses. O agravamento das contas públicas ocorre no mesmo relatório em que o governo incluiu no Orçamento um pacote de gastos com forte apelo eleitoral, a um ano das eleições presidenciais.
Entre as medidas que pressionam o caixa está o reajuste de 15% do Bolsa Família, cujo custo adicional foi estimado em R$ 5,8 bilhões. O programa social, carro-chefe da política assistencial do governo, tem sido ampliado em ano pré-eleitoral, num momento em que a popularidade do presidente é monitorada de perto pelo Planalto.
Diante do rombo maior, a equipe econômica precisou anunciar um contingenciamento de R$ 13,6 bilhões em verbas do Orçamento — recursos que ficam bloqueados para uso pelos ministérios — além de um bloqueio adicional de R$ 2,4 bilhões. Ainda assim, o governo garante que vai cumprir a meta fiscal de 2026, que prevê superávit de R$ 34,3 bilhões, com margem de tolerância que admite resultado zero.
Segundo o secretário-executivo do Ministério da Fazenda, Rogério Ceron, o resultado deve ficar "no meio do caminho" entre o centro e o piso da meta — repetindo o padrão dos últimos dois anos, em que o governo sempre bateu na trave do limite mínimo permitido.
Receitas em queda, gastos obrigatórios em alta
A estimativa de receitas primárias totais em 2026 caiu R$ 15,7 bilhões, para R$ 3,222 trilhões, refletindo a desaceleração da atividade econômica. Ao mesmo tempo, despesas obrigatórias — puxadas por benefícios sociais, aumento real do salário mínimo e reajustes de programas assistenciais — continuam crescendo em ritmo mais acelerado que a arrecadação.
Economistas apontam que a combinação de expansão de gastos sociais com estagnação da receita é um padrão recorrente em anos que antecedem eleições, e que o espaço fiscal criado por deduções legais — como precatórios e exceções para saúde, defesa e educação — tem sido usado para viabilizar essa expansão sem descumprir formalmente a meta.
2027 sob suspeita
O cenário reforça as dúvidas do mercado sobre a solidez das contas no ano eleitoral. O Orçamento de 2027, enviado ao Congresso em agosto, prevê superávit de R$ 18,6 bilhões com base em uma projeção de crescimento do PIB de 2,5% — bem acima da estimativa de 1,43% do Boletim Focus do Banco Central. A Instituição Fiscal Independente (IFI), órgão técnico do Senado, projeta déficit primário efetivo de R$ 86,1 bilhões para o governo central em 2027, uma diferença de R$ 104,8 bilhões em relação à previsão oficial.
Para analistas, as projeções otimistas de crescimento e arrecadação usadas pelo governo para sustentar um Orçamento "no azul" no papel aumentam o risco de novos contingenciamentos ao longo de 2027 — justamente no ano em que Lula disputará a reeleição, e no qual a tentação de sustentar gastos sociais e crédito farto tende a se intensificar.