A defesa pública que Davi Alcolumbre fez do ministro Alexandre de Moraes nesta quarta-feira (2), ao mesmo tempo em que alfinetou Flávio Bolsonaro sobre o financiamento do filme "Dark Horse", ganha outro contorno quando se recorda que o próprio presidente do Senado já apareceu, em diferentes momentos da cobertura do caso Banco Master, como um dos nomes politicamente próximos do escândalo. Isso ocorreu muito antes de vir a público como defensor do ministro.
O capítulo mais concreto envolve a Amapá Previdência (Amprev), fundo que administra a previdência dos servidores públicos do Amapá, estado de onde Alcolumbre é senador. Em fevereiro deste ano, a Polícia Federal deflagrou a Operação Zona Cinzenta para apurar a destinação de R$ 400 milhões do fundo a Letras Financeiras do Banco Master, decisão tomada em menos de 20 dias e que, segundo a PF, ignorou alertas internos sobre os riscos da concentração de recursos na instituição de Daniel Vorcaro.
O então diretor-presidente da Amprev, Jocildo Silva Lemos, apontado pela polícia como figura central na decisão, foi indicado ao cargo por Alcolumbre, a quem chegou a agradecer publicamente pela nomeação. O Conselho Fiscal do fundo, por sua vez, teve como integrante o próprio irmão do senador, o advogado Alberto Alcolumbre.
O nome de Alcolumbre voltou à cena com ainda mais força em junho, quando a revista Veja revelou que Daniel Vorcaro, em proposta de delação premiada apresentada à Polícia Federal, relatou o pagamento de US$ 30 milhões (cerca de R$ 155 milhões) ao presidente do Senado. O valor teria sido depositado em conta no exterior por intermédio de Augusto Lima, ex-sócio do banqueiro, em troca de apoio a interesses do Banco Master.
A proposta de colaboração, no entanto, foi rejeitada pela Polícia Federal, que considerou o material incompleto. Alcolumbre negou publicamente ter recebido qualquer valor de Vorcaro, classificou as acusações como "absolutamente falsas" e afirmou que acionaria a Justiça contra os responsáveis pelas declarações.
O episódio ainda gerou desdobramentos políticos. O pré-candidato Romeu Zema (Novo) chegou a acusar Alcolumbre de travar a instalação de uma CPMI do Banco Master, que reunia mais de 280 assinaturas, justamente por conta de seu suposto envolvimento no escândalo, acusação também negada pelo presidente do Senado.
É nesse contexto que a fala de Alcolumbre em defesa de Moraes ganha relevância adicional. Ao usar a tribuna para minimizar a gravidade das mensagens entre o ministro e Vorcaro e redirecionar as atenções para Flávio Bolsonaro, o presidente do Senado fala a partir de uma posição em que seu próprio nome, direta ou indiretamente, já foi mencionado nas investigações e revelações sobre o mesmo escândalo. Isso reforça o entendimento de que sua atuação recente é também uma forma de proteger interesses próprios, e não apenas de terceiros.