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politica

Bira Rocha: o homem que planilhava

Texto de Raimundo Carlyle: 

Há homens que passam pela vida colecionando fotografias.

Outros colecionam cargos, medalhas, fazendas, empresas, títulos, amizades.

Bira Rocha colecionava números.

Tinha planilhas para quase tudo.

Nelas cabiam o Rio Grande do Norte, o Brasil e, provavelmente, o mundo. PIB, inflação, produção, exportações, petróleo, gás, energia, água, indústria, agricultura, estradas, impostos, juros, população. O presente, para ele, nunca era apenas o presente. Era uma variável dentro de alguma equação maior.

Talvez por isso seja difícil escrever sobre Bira depois que ele morreu.

A morte costuma simplificar as pessoas. Transforma o homem em algumas linhas: nasceu, trabalhou, ocupou cargos, criou empresas, deixou filhos, morreu.

Bira não cabia em poucas linhas.

Abelírio de Vasconcelos Rocha morreu aos 84 anos, em Natal, deixando uma trajetória que atravessou a agropecuária, a indústria, o associativismo empresarial e a administração pública. Presidiu a Federação das Indústrias do Rio Grande do Norte em dois períodos, foi vice-presidente da Confederação Nacional da Indústria e comandou o Sindicato da Indústria Metalúrgica. Foi secretário de Estado e chegou ao governo federal como secretário nacional de Irrigação, no governo Itamar Franco.

Mas talvez os cargos digam menos sobre ele do que aquilo que fazia com os números.

Porque Bira não parecia interessado apenas em saber quanto o Rio Grande do Norte produzia.

Queria saber por que produzia tão pouco.

Não lhe bastava saber que havia sal. Era preciso perguntar o que se poderia fazer industrialmente com o sal.

Não bastava ter gás. Era necessário imaginar energia, indústria, empregos, arrecadação.

Não bastava receber água do São Francisco. Era preciso saber o que o Estado faria com ela depois que a água chegasse.

Era sempre a segunda pergunta.

E talvez essa tenha sido sua característica mais marcante: Bira desconfiava das respostas fáceis.

Quando muitos enxergavam uma obra, ele procurava enxergar o que vinha depois da obra.

Quando aparecia uma matéria-prima, procurava a cadeia produtiva.

Quando surgia uma oportunidade, procurava a escala.

Quando alguém comemorava um indicador positivo, Bira queria saber a série histórica.

Talvez abrisse uma planilha.

A história empresarial confirma esse modo de pensar.

Na Lanila Agropecuária, empreendimento que começou a estruturar no início dos anos 2000, Bira investiu na criação de ovinos e construiu um projeto de pecuária tecnificada. A fazenda chegou a trabalhar com milhares de animais e utilizava genética, manejo e nutrição como instrumentos de produtividade. Anos depois, decidiu vender o negócio de ovinos e adaptar a propriedade para a criação de bovinos.

Era o mesmo homem.

Mudava o negócio.

Não mudava a lógica.

Observar.

Comparar.

Calcular.

Decidir.

E seguir adiante.

Bira também tinha uma característica que talvez hoje pareça comum, mas que, em outras décadas, era quase uma excentricidade: gostava de tecnologia aplicada à realidade.

Não a tecnologia como fetiche.

Tecnologia como ferramenta.

Na pecuária, significava genética, manejo e nutrição.

Na indústria, significava produtividade.

Na economia, significava informação.

Na administração pública, significava planejamento.

E no desenvolvimento do Estado, significava transformar aquilo que o Rio Grande do Norte tinha em aquilo que o Rio Grande do Norte poderia ser.

Foi nessa perspectiva que participou dos grandes debates econômicos de seu tempo.

O Polo Gás-Sal, por exemplo, não era para ele apenas um projeto industrial. Era uma tentativa de combinar vantagens comparativas do Estado com capital, energia, tecnologia e mercado. Anos depois, continuava discutindo o problema da energia eólica: o RN poderia produzir uma enorme quantidade de energia, mas corria o risco de exportar eletricidade sem capturar suficientemente os benefícios econômicos da atividade.

É curioso pensar que Bira morreu justamente quando algumas das coisas que ele discutia há décadas começam a adquirir uma dimensão nova.

Água.

Energia.

Tecnologia.

Agroindústria.

Inteligência.

Dados.

O mundo mudou.

A planilha virou banco de dados.

O banco de dados virou inteligência artificial.

A informação que antes precisava ser procurada em jornais, relatórios e tabelas hoje pode aparecer em segundos numa tela.

Mas permanece a pergunta que nenhuma tecnologia consegue responder sozinha:

O que fazemos com a informação?

Bira parecia saber que informação sem decisão é apenas arquivo.

E decisão sem informação é apenas palpite.

Talvez por isso a imagem do homem diante das planilhas seja tão apropriada.

Imagino Bira já velho, conforme me relatou a sua filha Stela, sentado diante de várias telas, os óculos no rosto, examinando uma tabela qualquer.

Natal.

Rio Grande do Norte.

Brasil.

Mundo.

Uma coluna.

Outra coluna.

Uma variação.

Uma tendência.

Uma oportunidade.

Talvez ele percebesse uma coisa que os outros ainda não tinham percebido.

Talvez chamasse alguém.

“Olhe isso aqui.”

E começasse uma conversa.

Porque Bira tinha esse defeito dos inquietos: nunca parecia completamente convencido de que o mundo estava pronto.

Sempre havia alguma coisa para corrigir.

Alguma estrada para construir.

Alguma indústria para atrair.

Alguma cadeia produtiva para organizar.

Alguma oportunidade desperdiçada.

Algum número que não fechava.

E talvez fosse exatamente aí que morasse seu inconformismo.

Bira foi também um homem de paixões.

Entre elas, o ABC.

No início dos anos 1970, integrou a Junta Governativa que dirigiu o clube durante um período histórico, marcado pelo tetracampeonato estadual e pela célebre excursão internacional de 1973. Décadas depois, recebeu o título de conselheiro nato.

Até nisso há uma espécie de coerência.

Porque futebol também é planilha.

Pontos.

Gols.

Saldo.

Tabela.

Probabilidade.

Mas há coisas que nenhuma planilha consegue explicar.

O amor de um homem pelo seu clube.

A amizade.

A lealdade.

A memória.

A falta que alguém faz quando deixa de atender o telefone.

A cadeira vazia.

O silêncio depois da última conversa.

Essas coisas não fecham.

Não entram na coluna de ativos ou passivos.

Não produzem PIB.

Não aumentam a produtividade.

Não melhoram uma taxa de retorno.

E talvez seja justamente por isso que sejam as mais importantes.

Agora, quando o Rio Grande do Norte se despede de Bira Rocha, é tentador fazer o balanço de sua vida.

Quantos cargos?

Quantos projetos?

Quantos empreendimentos?

Quantas reuniões?

Quantas ideias?

Quantos acertos?

Quantos projetos que não saíram do papel?

A planilha final, porém, não existe.

E talvez nunca devesse existir.

Porque a vida de um homem não é uma demonstração contábil.

Bira Rocha gostava de números.

Mas sua história mostra que compreendia algo que os números não conseguem medir: desenvolvimento não acontece apenas quando uma conta fecha.

Acontece quando alguém imagina uma possibilidade antes dos outros.

Quando alguém insiste numa ideia durante décadas.

Quando alguém olha para uma terra seca e enxerga água.

Olha para o sal e enxerga indústria.

Olha para o vento e enxerga energia.

Olha para um rebanho e enxerga tecnologia.

Olha para um Estado pequeno e enxerga um projeto grande.

Talvez seja essa a melhor maneira de lembrar Bira.

Não como o homem que tinha respostas para tudo.

Mas como o homem que tinha sempre uma pergunta a mais.

E, em algum lugar, provavelmente havia uma planilha aberta para tentar respondê-la.

Agora a planilha fechou.

O homem que planilhava foi embora.

Ficaram os números.

Ficaram as ideias.

Ficaram os projetos.

Ficaram as perguntas.

E ficou, sobretudo, uma lição silenciosa para um Estado que tantas vezes se acostumou a olhar para aquilo que tem, mas nem sempre para aquilo que poderia fazer com o que tem: o futuro talvez comece exatamente quando alguém abre uma planilha e decide não aceitar o presente como destino.

Aos filhos Gustavo, Stela e Ricardo, e à d. Carmen Lúcia, meu fraternal abraço.

Raimundo Carlyle

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