A crise no STF (Supremo Tribunal Federal) se intensificou nesta semana, após o ministro André Mendonça quebrar o sigilo de um relatório da PF (Polícia Federal) que mostra as trocas de mensagens entre o ministro Alexandre de Moraes e o ex-banqueiro Daniel Vorcaro, do extinto Banco Master.
O relatório da investigação da PF mapeou uma série de encontros que ocorreram entre fevereiro de 2024 e agosto de 2025. Segundo o material, o primeiro contato foi intermediado ainda em 2023 pelo ex-ministro das Comunicações no governo Bolsonaro, Fábio Faria, que encaminhou a Vorcaro o número de telefone de Moraes.
Em 2 de fevereiro de 2024, segundo as mensagens analisadas, ocorreu um jantar entre Moraes e Vorcaro, com a presença das respectivas esposas. Em novembro de 2024, ocorreram vários outros encontros.
Em março de 2025, Vorcaro informou à esposa que estava com Moraes e, posteriormente, repetiu a mesma informação a um diretor do Banco Central. Em abril de 2025, ele disse que estava indo encontrar Moraes "perto de casa".
O Procurador-Geral da República, Paulo Gonet, também apareceu nas mensagens do relatório em conversa com Vorcaro, intermediada pelo advogado Ciro Soares. Além dele, o diretor-geral da PF, Andrei Rodrigues, é citado.
Moraes ainda não se pronunciou oficialmente sobre as citações. No entanto, ele usou o inquérito das Fake News para acusar o ministro André Mendonça de crimes. O magistrado também pede ao presidente da corte, Edson Fachin, que abra ação contra o colega.
Em decisão, assinada na noite de quinta-feira (3), Moraes enumera suspeitas contra Mendonça por usurpação da direção das investigações, condução irregular das tratativas de delação premiada e direcionamento de investigação contra o magistrado.
As suspeitas têm como base relatórios de inteligência da Polícia Federal sobre a atuação de Mendonça nas operações Sem Desconto, que investiga fraudes relacionadas ao INSS, e Compliance Zero, ligada ao Banco Master.
Segundo Moraes, os documentos apontam três principais condutas: interferência na condução das investigações pela PF, participação irregular em tratativas de colaboração premiada e direcionamento de alvos por “motivos pessoais e políticos”.
Entre os alvos citados estão o próprio Moraes e o presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP).
Manifestação da PGR
A PGR pediu nulidade do relatório da PF em parecer. Segundo Gonet, a investigação não poderia ter avançado da forma como foi conduzida sem provocação do Ministério Público. A PGR também questionou o tratamento dado a informações envolvendo autoridades com foro no Supremo.
No parecer de Gonet, ele também afirmou ser inegável que houve um esforço para “buscar indicativos de envolvimento do ministro Alexandre de Moraes em ilícitos”.
O procurador-geral salientou, em referência ao ministro André Mendonça, que ao magistrado “não cabe acusar, menos ainda ao juiz cabe realizar investigações pre-processuais”.
O parecer atestou ainda que Mendonça, quando determinou a investigação, “sabia que entre elas havia pessoas detentoras de foro por prerrogativa de função”, em referência a Moraes.
Fachin se pronuncia
O presidente do STF, Edson Fachin, determinou que Moraes e Mendonça se manifestem em até cinco dias sobre a crise envolvendo o caso Master. Andrei Rodrigues e Paulo Gonet também devem se manifestar dentro do mesmo prazo.
A decisão de Fachin faz parte da abertura de um procedimento para esclarecer questões levantadas pela PGR em parecer que pediu a extinção da apuração conduzida por Mendonça.
O presidente do STF afirmou ser necessário colher informações sobre:
- o cumprimento, pela PF, das regras previstas na Lei Orgânica da Magistratura para casos envolvendo autoridades com foro no Supremo;
- eventuais indícios de uso de credenciais institucionais para acessar documento particular e de repasse de informações protegidas por sigilo judicial a pessoa investigada;
- as circunstâncias em que Mendonça determinou a identificação de pessoas mencionadas nas investigações do caso Master; e
- as medidas adotadas pela PGR, no exercício do controle externo da atividade policial, para fiscalizar o cumprimento dessas regras.
"Cabe à Presidência do tribunal zelar para que a possível apreciação colegiada seja feita, a tempo e modo, com o elevado senso de responsabilidade que os fatos reclamam", afirmou Fachin.
Fachin também afirmou que esses possíveis "vícios de forma" ainda serão analisados. Antes disso, porém, determinou a coleta de informações de Moraes, Mendonça, Gonet e Andrei Rodrigues para esclarecer os fatos e decidir os próximos passos do caso.