As companhias aéreas brasileiras devem perder cerca de 50% da lucratividade em 2026, segundo projeções acompanhadas pela InfoMoney. A combinação de custos crescentes com querosene de aviação, dólar pressionado e incertezas geopolíticas forma um cenário que o setor não via desde os piores momentos da pandemia. O combustível representa a maior fatia dos custos operacionais das aéreas e está diretamente atrelado ao preço do petróleo, que segue próximo de US$ 95 o barril por causa da guerra entre EUA e Irã.
O problema é estrutural e conjuntural ao mesmo tempo. Estruturalmente, a conectividade aérea no Brasil ainda não recuperou o patamar pré-pandemia, segundo levantamento também destacado pela InfoMoney. A regulação excessiva é apontada como um dos principais entraves para a expansão de rotas e a entrada de novas companhias. Conjunturalmente, o setor enfrenta uma alta simultânea nos seus dois maiores insumos dolarizados: o combustível e o leasing de aeronaves. Com o dólar a R$ 5,19 e tendência de alta caso o Fed suba os juros americanos, a margem de manobra das empresas é mínima.
Para o passageiro, a consequência é direta: passagens mais caras. As aéreas já vinham recompondo preços ao longo de 2025 e o movimento deve se intensificar no segundo semestre de 2026, justamente no período de alta temporada e às vésperas das eleições. Para o governo, que incluiu a redução do custo de vida como bandeira de campanha, o encarecimento das passagens aéreas é um problema político e não apenas econômico. A Câmara chegou a votar projeto que reduz impostos sobre combustíveis, mas a medida, se aprovada, teria impacto fiscal significativo e alimentaria o dilema entre alívio de preços e responsabilidade orçamentária.
As metas de descarbonização, outro tema em pauta no setor, avançam de forma "tímida e lenta", segundo as próprias companhias. A transição para combustíveis sustentáveis de aviação exige investimentos pesados e tecnologia que ainda não está disponível em escala no Brasil. Enquanto isso, a dependência do querosene derivado de petróleo mantém o setor vulnerável a cada oscilação no mercado global de energia. É um círculo que se retroalimenta: o setor precisa investir para se modernizar, mas a lucratividade em queda tira os recursos necessários para essa transição.
O setor aéreo é termômetro da economia real. Quando as aéreas sofrem, o turismo desacelera, as cidades que dependem de conexões aéreas perdem dinamismo e o custo de fazer negócios no país sobe. Num Brasil continental, onde a alternativa rodoviária é lenta e cara, a saúde das companhias aéreas não é assunto de nicho. É uma questão de integração nacional e competitividade que, em ano de eleição, deveria estar no centro do debate, não na periferia.