A União Europeia formalizou a restrição à importação de carnes e produtos de origem animal do Brasil a partir de setembro de 2026, numa decisão que atinge em cheio o setor mais competitivo do agronegócio brasileiro. A Federação da Agricultura do Paraná (Faep) reagiu com dureza, criticando a medida e cobrando do governo federal o envio urgente de dados e documentação que possam reverter ou ao menos atenuar as barreiras antes que entrem em vigor.
O timing não poderia ser pior. O Brasil já enfrenta dificuldades para redirecionar exportações penalizadas pelas tarifas impostas por Donald Trump, que afetam uma série de produtos brasileiros. Como destacado pelo Globo, empresas taxadas pelo governo americano têm encontrado obstáculos para vender a outros mercados, o que significa que a perda do canal europeu para carnes reduziria ainda mais as opções disponíveis para os exportadores. O agronegócio, que é o principal motor da balança comercial brasileira, se vê pressionado em duas frentes ao mesmo tempo.
A restrição europeia está ligada a exigências sanitárias e ambientais que o bloco vem endurecendo nos últimos anos, incluindo rastreabilidade da cadeia produtiva e garantias contra desmatamento. O governo brasileiro argumenta que já possui sistemas de monitoramento robustos, mas a burocracia diplomática e a falta de dados atualizados atrasaram o envio de informações que poderiam sustentar essa defesa. A Faep aponta que o problema não é a qualidade do produto brasileiro, mas a lentidão do aparato estatal em responder às demandas europeias dentro dos prazos estabelecidos.
O impacto econômico potencial é significativo. A Europa é o mercado que paga os maiores prêmios pela carne brasileira, e a substituição por outros destinos dificilmente compensaria a diferença de preço. Para o Rio Grande do Sul, Paraná, Mato Grosso do Sul e Goiás, estados com forte presença da pecuária de exportação, a restrição pode afetar receitas, empregos e arrecadação tributária num momento em que vários desses entes já enfrentam dificuldades fiscais documentadas pela XP Investimentos.
Em ano eleitoral, a crise das carnes com a Europa tem potencial de virar munição política. A oposição pode explorar a imagem de um governo que perdeu mercados por inação diplomática, enquanto o Planalto tentará atribuir a culpa ao protecionismo europeu. A verdade provavelmente está no meio: a Europa endurece regras por convicção e conveniência comercial, e o Brasil demora a se adaptar por desorganização e falta de prioridade. O resultado é o mesmo: o produtor brasileiro paga o preço.