Ao defender a volta do diploma obrigatório para jornalistas e traçar um retrato duro do jornalismo praticado hoje, o ministro Alexandre de Moraes acabou produzindo um discurso que ultrapassa as fronteiras que pretendia demarcar. A fala, construída para separar o "jornalismo sério" de blogueiros oportunistas e de possíveis infiltrações de facções criminosas nas redes, terminou por lançar uma sombra sobre toda a categoria — inclusive sobre vozes que historicamente se posicionaram ao lado do ministro em suas disputas públicas com o bolsonarismo e com críticos do STF.
O problema está na generalidade da crítica. Quando Moraes diz que "qualquer pessoa acorda e diz: 'a partir de hoje eu sou um jornalista' e começa no seu blog a ofender a honra de inúmeras pessoas e se escudar na liberdade de imprensa", ele não estabelece um corte claro entre quem seria esse "qualquer um" e quem seria o profissional sério que ele diz querer proteger. Ao não nominar exemplos, o discurso vira generalização — e generalizações, no debate sobre liberdade de imprensa, tendem a acertar indiscriminadamente.
Isso é especialmente irônico porque boa parte do jornalismo digital, dos canais independentes e dos comentaristas políticos que hoje atuam sem vínculo formal com grandes veículos — e que muitas vezes não possuem diploma — são justamente os que mais defenderam publicamente as decisões de Moraes ao longo dos últimos anos, sobretudo no enfrentamento à desinformação e aos ataques ao STF. Ao colocar sob suspeita genérica "qualquer pessoa" que se apresenta como jornalista nas redes sociais, o ministro não distingue entre quem produz conteúdo responsável fora da estrutura tradicional da imprensa e quem efetivamente comete abusos — e essa indistinção alcança até seus próprios aliados no debate público.
Há também uma contradição de fundo: o mesmo argumento de que a ausência de diploma permite que qualquer pessoa se autoproclame jornalista já foi usado, no passado, por setores da própria imprensa tradicional para desqualificar vozes alternativas — inclusive aquelas que, com frequência, produziram conteúdo favorável a decisões do STF e do próprio Moraes. Ao reeditar esse argumento agora, num contexto de tensão entre o Judiciário e parte da imprensa digital, o ministro corre o risco de fragilizar justamente a rede de sustentação discursiva que o apoiou em momentos de maior pressão política.
Não se trata de negar que existam problemas reais de qualidade, verificação e responsabilidade no ecossistema de informação atual — o próprio caso da Escola Base, citado por Moraes, mostra que erros graves ocorrem também na imprensa tradicional, com diploma e estrutura. O ponto é que a solução proposta, ao ser formulada em termos tão amplos, não protege apenas o jornalismo sério: ela também lança suspeita sobre uma parcela heterogênea de comunicadores digitais, entre os quais estão tanto adversários quanto defensores do próprio ministro. Nesse sentido, a crítica de Moraes talvez tenha sido menos cirúrgica do que ele pretendia — e mais abrangente do que seria estrategicamente conveniente.